– Wandekerleson, você já reparou que coisa mais sem graça? Nós dois não temos apelidos.

– Como assim?

– Eu acho uma gracinha quando um casal se trata por aqueles apelidos carinhosos… benzinho, minha flor, meu gato, chuchu, uva…

– Não vejo tanta graça nisso.

– Você nunca me chamou de nada. É sempre Luzineide pra cá, Wandekerleson pra lá… Não tem tempero, Wandekerleson. Tá faltando apelido.

– E o que você quer que eu faça, Luzineide?

– O meu sonho é dizer “te amo” e falar um apelido. Coisas do tipo: Te amo, Chuchu. E depois ouvir você me dizer: Também te amo, Docinho. E aí, as nossas conversas seriam mais carinhosas: Tchau, Chuchu!… Tchau, Docinho!… Vamos jantar fora hoje, Chuchu?… Vamos, Docinho!… Ai, ai…

– Luzineide, esqueça. A realidade é esta: nós não temos apelidos.

– Mas a gente pode mudar a situação. Ora, Wandekerleson, o homem já foi à lua. Será que a gente não consegue criar um apelido?

– Que tal Lua Cheia?

– Tá me chamando de gorda?

– Você não falou de homem indo à lua? Então, você é a minha lua cheia de paixão.

– Nada a ver. Faz o seguinte: primeiro as frutas. Você poderia me chamar de pera.

– Não iria dar certo. Já pensou viver com uma mulher deses…perada? A não ser que a gente se trate por Pera e Peru. Seria mais excitante.

– Grosso!

– Tá bom, do jeito que você vive reclamando, vou te chamar de flor: Samambaia Chorona. Satisfeita?

– Também vou te chamar de flor: Cacto.

– A gente vai acabar brigando por causa dessa bobagem de apelido. Depois você não gosta que eu fique falando… mas esse seu papo é frescura de mulher. Ninguém combina apelido. Apelido nasce naturalmente.

– Você é naturalmente estúpido, Wandekerleson.

– Vai engrossar, é?

– Boçal!

– Idiota!

– Sabe que você é a idiota mais lindinha que eu conheço?

– E você é o boçal mais fofo que eu já vi.

– Me dá um beijo.

– Mmmm!… Te amo, Boçal.

– Mmmm!… Te amo, Idiota.

 


José Antônio Oliveira de Resende

José Antônio Oliveira de Resende é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. Escritor, cronista, poeta, compositor, ator e autor de várias peças de teatro. É autor de livros tanto na área acadêmica quanto na literatura. Suas crônicas podem ser lidas nos jornais Tribuna Sanjoanense e Folha das Vertentes, ambos de São João del-Rei, e Jornal das Lajes, da cidade de Resende Costa.

e-mail: jresende@mgconecta.com.br

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