I

Nesta espécie de tremor de terra, que é uma mudança de domicílio, não raro acontece encontrarmos velhas coisas perdidas, objetos que mal reconhecemos quando, súbito, os recuperamos; velhos livros que um dia lemos apaixonadamente e que hoje mal lembramos o que contêm, esquecidos de tudo que nos disseram e ensinaram outrora. O tempo, que sepulta incansável todas as coisas e desfaz no passado os maiores acontecimentos, empenha-se não apenas em liquidar, mas também em esconder tudo.
De um achado, entretanto, não posso deixar de falar: não sei como, em cima de minha nova mesa de trabalho, vejo – como se fosse uma estranha planta aquática, emergindo à tona suas raízes encharcadas – um velho caderno meu, de capa alaranjada.
E esse caderno, à medida em que o vou distraidamente folheando e palpando, aos poucos me devolve a adolescência, com seus sonhos e sentidos mais estranhos e secretos, com a sua confusão, seus anseios, suas indecisas ambições… É um repositório de coisas idas e vividas: meus pobres primeiros versos publicados, por exemplo, estão colados a algumas páginas do grosso volume – versos incríveis e grotescos, alguns pretensiosos e alambicados ao mesmo tempo… Mas não me rio deles, porque me falta coragem para rir, deles que pela primeira vez exprimiram o que me torturava e pesava na alma jovem, entre a adolescência e a primeira mocidade.
Aqui está, por exemplo, uma Oração a São Francisco de Assis, em que suplico ao grande santo “a esmola de um pouco de simplicidade” – isso depois de ter debitado toda a gama de lugares-comuns nesse poema, chegando à ingenuidade de chamar o jogral de Deus de rudo. Noutra página adiante, deparo com umas Sugestões Marinhas que mereceram a honra de aparecer em letra de forma na Revista Sousa Cruz e ser publicadas de novo em Beira-Mar; lembro-me agora de que escrevi essas Sugestões Marinhas num triste quarto de pensão, em São Paulo, donde a janela se abria sobre uma sufocada paisagem urbana: a chuva caía intensamente, e de raro em raro um transeunte apressado interrompia a monotonia da noite. Foi então que nasceu o poema, com a saudade de terras distantes, que eu já conheço sem conhecer. Na verdade era o mar que me fazia ali. Comovo-me ao pensar em mim, nesse quase menino que trabalhava por cento e vinte mil-réis de ordenado mensal, numa cidade estranha, com poucos amigos e quase ninguém para conversar.
Já lá se vão trinta anos, Deus meu! E então a única porta aberta sobre o destino indecifrável era o dom da poesia – de uma poesia que tão longe estava de encontrar sua expressão, seu continente!
Umas páginas mais, e há outro poema – já dos meus dezoito anos – publicado não sei em que periódico, em letras cor-de-rosa sobre papel branco: Meu Romântico Noturno, um horror que perpetrei numa hora tardia. Vinha eu descendo a Avenida Higienópolis, rumo à pensão que ficava em Rego Freitas, quando pressenti o acontecimento do poema, com sua cadência; não me lembro de mais perfeito mostrengo, encerrando uma confissão surpreendente: “Eu sou, ninguém o sabe porém, um Musset século XX”… Essa triste divagação, dediquei-a eu, logo a quem? Para o Cornélio Pena, conforme está escrito. O autor de alguns dos romances mais estranhos de nossa literatura era meu amigo íntimo; no Rio, encontrávamo-nos todos os dias, esperando eu num café, até que Cornélio terminasse o seu trabalho de redator num jornal, e depois conversávamos longamente. Daí o acompanhava até as barcas, porque ele residia em Niterói: quantas e quantas vezes não atravessei também a Guanabara, a fazer-lhe confidências… A mocidade passou, e a amizade também; faz tempo que não o vejo. Apenas sei que mora perto de mim, e que não somos mais os mesmos. O homem maduro e preocupado em que me transformei já não lhe pode interessar.
Surge depois o meu primeiro poema que se publicou com ilustração: Ilberino, assinava-se o ilustrador. Era meu companheiro de pensão, em São Paulo, e hoje lhe desconheço o paradeiro:

“A alma da noite chorava
Lá fora,
Chora meu tédio dentro de mim:
Noite sombria, noite sem fim!”

Era o tédio antes da experiência, o tédio antes da vida vivida…

II

Nunca me esquecerei dos tormentos que me assaltavam nessa época, quando a imaginação principiava a submeter-se às contingências duma realidade penosamente aceita.
Ainda não chegara a amor, e o espírito debatia-se incerto, sem fulcro e sem rumo. A esterilidade, o deserto e o desconsolo reinavam entre os fragmentos duma personalidade que não se fixara ainda; tudo era impreciso e perdia-se numa total ausência de vontade, interrompida por raros impulsos e iluminações efêmeras. A pobreza literária parecia irremediável, a língua não se desatava. Num soneto, publicado não sei onde, sob o título de Ânsia Estéril, encontro um:

Há de perder-se sempre na distância
O teu grito final de condenado

Que ora me faz estremecer: pertence esse soneto à época do homem às voltas com o enigma do universo, o grande período medíocre e pretensioso. Tudo que a infância possuíra de autêntico, de rico, de largamente fecundo, esse prodigioso rio da infância, com as suas dores e alegrias, viera desaguar na mais trágica adolescência. A tortura, o torturado e o pascaliano de baixo nível vinham substituir a criança de sensibilidade aguda, que aprendera a sofrer com admirável disposição; era entretanto esse adolescente, esse moço beletrista, quem se envergonhava duma infância que mal acabara de encerrar o seu reinado, e que já pareceia mais distante do que a sinto de mim agora.
Afinal, eis que veio o amor, e me encontrou às voltas com um livro imaginário, cujo título seria bastante para testemunhar a proximidade da condenação inevitável à subliteratura. O livro chamava-se Mística Oferenda, e nele o amor se desvelou, aparecendo vivo e palpitante.
Que amor era esse, meu Deus? Mal o reconheço agora, tão remoto e perdido está de mim. O balbucio poético reencontrado pode, entretanto, levar-me a exumar esse mistério extinto que foi minha primeira paixão amorosa – os primeiros e inquietos passos na aventura do amor. E do amor falei eu em poemas ridículos, que pertenciam a um livro que rasguei quando a consciência despertou; esse amor inspirou-me poemas que releio agora e que me falam duma “inocência, intuição de todos os pecados…” Foi o primeiro amor que celebrei, mas o abismo da meninice guarda ainda uma outra figura feminina: de minha janela no dormitório do colégio posso ver uma pequena casa vizinha, humilde, onde morava minha primeira namorada, a primeira inquietação de minha vida… Era um segredo, algo escondido e muito encabulado, que desapareceu inesperadamente como surgira, amor pleno sem o qual a vida não seria então vivida, e do qual não guardo sequer lembrança, hoje em dia, nem das inquietações nem dos íntimos sofrimentos.
Tudo o abismo guarda, tudo se perde e repousa no abismo – os sorrisos maliciosos, as flores no cabelo, as mãos leves e de unhas rentes, o gesto mesmo de levantar com as mãos rápidas o cabelo caído sobre a testa, tudo se foi com a adolescência: as alegrias, as furtivas tristezas, as perplexidades, as inquietas esperas no início do jogo do mundo. Tudo aquilo que esses tristes e envergonhados versos não souberam exprimir, canhestros e feios, impossíveis de ler e que todavia prendem meu olhar de agora a um ponto longínquo do caminho percorrido, tudo aquilo ficou para trás… para longe, cada vez mais longe