RIO — Um dia antes de enviar para a Cassia Bomeny Galeria, em Ipanema, as 15 obras da exposição individual que inaugura nesta terça-feira, às 18h, Antonio Manuel cola um pequeno quadrado de tecido no canto superior da tela “Dois planos cor”. O pintor, escultor, gravador e desenhista, que completa 70 anos no dia 22 de outubro, diz que decidiu fazer a intervenção depois de dias pensando na obra, criada em seu ateliê, em Laranjeiras.

— A tela estava me trazendo incômodo há vários dias. Finalmente consegui resolver isso com essa intervenção. Geralmente durmo com coisas como esse quadradinho na cabeça. Pela manhã, a primeira coisa que faço é ir ao ateliê e buscar uma solução. Às vezes outra pintura me dá a chave — conta. — Produzir é um prazer, mas também envolve muita ansiedade e angústia, não é algo tranquilo. Levo os trabalhos para casa, para o restaurante, para a rua, eles ficam na cabeça até encontrar uma linguagem. É quase uma luta corporal.

Os embates internos de Antonio Manuel não são recentes. Acontecem há pelo menos 50 anos, tempo de carreira deste que é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Foi em 1967 que o português nascido em Avelãs de Caminho, mas vivendo no Rio desde 1953, inaugurou sua primeira exposição, na Galeria Goeldi, em Ipanema. Os tempos eram de chumbo, e ele não se furtou a comentá-los em seu trabalho, utilizando o jornal e sua matriz à época, o flan, como suporte, interferindo nas notícias e criando outras.

Algumas dessas obras, como “Repressão outra vez: eis o saldo” (1968), estavam na mostra panorâmica montada em 2013 no Museu de Arte Moderna (MAM), ao lado de outras que atestavam uma trajetória combativamente relevante e esteticamente poderosa, como a instalação “Fantasma” (1994) e os muros com buracos da série “Ocupações/descobrimentos”, criada em 1998. A coincidência das datas redondas de nascimento e de carreira não motivou o artista a tentar organizar uma retrospectiva — todas as obras da mostra que se abre hoje foram produzidas a partir de 2016.

— Sinto que uma retrospectiva iria me aprisionar, me cristalizar, prefiro trabalhar sem esse compromisso. O sistema de arte impõe uma série de coisas, é preciso ter currículo, pensar em retrospectivas em datas redondas, outros querem fazer catálogos raisonné ainda jovens — observa o pintor, um dos artistas selecionados para o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2015. — Nunca abri mão da minha liberdade de criar, nesses 50 anos de carreira não produzi nada direcionado a museus ou galerias.

As 15 telas inéditas seguem na abstração geométrica iniciada nos anos 1980 e criam diálogos com elementos de outros momentos de sua carreira, como os vazios e os fios de náilon com pêndulos. Ao mesmo tempo, Antonio Manuel introduz novos elementos, como o papel corrugado, recortes de tecido e tinta esmalte. O pintor já tinha metade das obras prontas quando uma visita do artista visual e curador Franz Manata ao ateliê abriu a possibilidade da individual.

— Uma das particularidades dessa mostra é trazer novos materiais em diálogo com todas as experiências já feitas pelo Antonio, não só nas pinturas, mas em outras de suas múltiplas vertentes artísticas. Ele continua criando de forma potente, articulando esses espaços — destaca Manata, que assina a curadoria da exposição.

Referência em arte política no Brasil, Antonio Manuel foi censurado pela ditadura militar por obras que traziam a violência das manchetes dos jornais para as telas, caso de “Repressão outra vez”. Em 1968, um painel de quatro metros criado para a segunda edição da Bienal da Bahia foi apreendido pelo Exército e jamais devolvido. No mesmo ano, Manuel apresentou a primeira de suas “Urnas quentes”, caixas de madeira lacradas que só teriam o conteúdo revelado se arrebentadas pelo público. Em 1970, criou a performance “O corpo é a obra”, em que surgiu nu na abertura do Salão Nacional de Arte Moderna do Rio, no MAM, manifestação que deu origem ao objeto “Corpobra”, do mesmo ano. Hoje, igualmente insatisfeito com os rumos do país e do mundo, ele prefere expressar sua indignação de forma mais sutil, nas obras geométricas que, para o autor, mantêm a força dos trabalhos do passado.

— Continuo trabalhando contra essas perplexidades do dia a dia, de perceber que estamos regredindo tanto a ponto de ter o Exército nas praias e nas favelas, em uma função que não é das Forças Armadas. Você vê as crianças de hoje e se pergunta: que perspectivas terão daqui a 20 anos? — questiona o pintor. — A minha maior reação hoje é continuar em atividade, potencializando a poética que venho buscando. A grande forma de transgressão é pela produção, pelo amor, o afeto. A arte nos agrega, nos momentos confusos ela tem essa função.

Abertura hoje, às 18 h. Seg. a Sexta das 10h às 19h; Sábado das 11h às 15h. Até 24/10.

Entrada franca

Local: Cassia Bomeny Galeria – Rua Garcia D’Avila, 196 – Ipanema

 

Fonte. O Globo

Entrevista a: Nelson Gobbi

Foto. Gustavo Miranda