Novo diretor da Escola Americana do Rio, britânico chegou à cidade há cerca de um mês.

“Sempre soube que gostaria de trabalhar com educação, desde cedo. Antes do Brasil, passei por países como Sudão, Bahrein e Filipinas, atuando em escolas internacionais. Em minha primeira semana aqui, marquei mais de 30 reuniões só com alunos, pois entendo que esta é a melhor maneira de se conhecer um colégio.”

Conte algo que não sei.

Decidi ser diretor de escola aos 11 anos. Sempre achei o melhor trabalho do mundo. Sofri bullying quando mais novo e acreditava que, sendo educador, poderia fazer algo para que outras crianças não passassem por isso. E, como diretor, achava que me manteria criança para sempre. Porque ninguém entende a escola melhor que as crianças.

A violência na Rocinha vem deixando milhares de alunos sem aula, inclusive na Escola Americana. Já tinha vivido essa experiência?

A triste realidade é que vivemos em um mundo turbulento. Parece não existir lugar que não seja afetado por questões de segurança. Em meus 12 anos no Sudão, sofri mais ameaças à minha segurança que o aceitável. Os desafios de segurança no Rio, que não estão limitados à Rocinha, são outra manifestação de um fenômeno global e não apenas local. Dirigir uma escola internacional nesse contexto, com tantas culturas e línguas diferentes entre as famílias, sempre será um desafio.

Como a escola trata essa questão?

O desafio não é apenas manter-se seguro, embora isso seja primordial. Precisamos que nossos filhos cresçam como pessoas determinadas a ter um impacto positivo no mundo. Um aspecto de como fazemos isso está ligado a como nós mesmos, pais e educadores, servimos de modelo. Existem conversas poderosas sobre como adultos e organizações respondem a situações de crise. O que dizemos aos alunos quando nós não dedicamos tempo para identificar o que é verdade e o que é notícia falsa? Se mostramos a eles a importância de estarem genuinamente informados, baseando seus pontos de vista e ações em inteligência, em vez de ignorância, estaremos prestando um serviço inestimável para as gerações futuras.

O que pensa sobre a reforma de Ensino Médio proposta, com currículo central e outras disciplinas que os alunos podem escolher?

Grande parte dos sistemas educacionais do mundo se baseia em modelos eletivos. Há um currículo básico e caminhos para as escolhas dos alunos. Dar esse poder de decisão aos estudantes é um ótimo estímulo para que não abandonem a escola. Mas, para um sistema assim dar certo, é preciso dar o mesmo valor a todos os caminhos que os jovens possam escolher. E é fundamental que as artes não sejam eletivas.

Por quê?

Posso me lembrar de todas as peças de teatro em que estive, mas não das aulas de matemática. Com as artes, aprendo a sentir, a socializar, posso literalmente me colocar no lugar do outro. Entender como o outro se sente é ter empatia, imprescindível para uma mudança social. Não importa quão bom é o professor de matemática, ele não vai ensinar empatia como as artes.

Fala-se que a escola hoje não prepara as crianças para o século XXI. Concorda?

Não é estranho que passados quase 17 anos do início do século XXI ainda estejamos falando, na educação, sobre estarmos prontos para este século? Você faria uma cirurgia com um médico que está 17 anos atrasado? Tratamos de tecnologia e novas ferramentas, mas a pedagogia fundamental não mudou. Temos os aparatos tecnológicos, mas estamos compreendendo que o que importa não são os dispositivos, mas o que pensamos sobre aprendizado.

FONTE: O Globo

Entrevista: Josy Fischberg

FOTO: Ana Branco

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