“Há mais de 20 anos formo professores. Sou pesquisadora na Faculdade de Educação da Universidade Diego Portales, em Santiago, e doutoranda no Instituto de Educação da Universidade ORT, em Montevidéu.”

Conte algo que não sei.

O Chile tem uma longa tradição na formação inicial de professores da educação infantil. A formação de professores é totalmente regulamentada. As carreiras da Pedagogia, como as da Medicina, devem ser certificadas, o acesso a elas é cada vez mais seletivo e há uma crescente preocupação com o início da prática profissional, para citar apenas algumas das ações que governam a formação. O Brasil se encontra em um momento sem precedentes desde o desenvolvimento do currículo para a educação infantil, que está entrando em vigor. Este pode ser um bom ponto de partida para projetar uma arquitetura visando à formação inicial de professores de crianças, e para realizar uma revisão e transformação para melhorar a qualidade de sua formação. É um belo desafio, que vale a pena dirigir.

Qual é a razão para o Chile ter a melhor educação na América Latina?

Como todas as mudanças socioculturais, as transformações que a educação chilena experimentou ocorreram ao longo do tempo, de modo que o reconhecimento atual é produto de sua evolução histórica. No entanto, com o retorno à democracia em 1990, o Chile mudou em todos os sentidos, e a educação não foi exceção. A ideia de igualdade foi instalada, o que constituiu uma grande preocupação das políticas educacionais para garantir oportunidades de aprendizagem de qualidade para todas as crianças e jovens.

Que práticas são utilizadas?

Mais do que uma prática específica, uma das perspectivas mais importantes que orientam a educação chilena é a ideia de tomar decisões com base em evidências. Isso estabelece uma cultura de avaliação em diferentes níveis, que promove nas partes interessadas do sistema de ensino — formadores de professores, gestores, professores, entre outros — a responsabilidade de revisar e tomar conta dos processos que eles implementam ou dos quais fazem parte, tendo critérios de qualidade claramente definidos. Exemplos dessa visão são o sistema de carreira docente, instrumentos curriculares e apoio à implementação de políticas educacionais, como os padrões de formação inicial de professores, o credenciamento de carreiras em Pedagogia, a estrutura de um bom ensino.

O que o Brasil pode aprender com a política educacional do Chile?

Os contextos particulares dos países e suas culturas tornam impossível transferir lições aprendidas. Mas é importante avançar num consenso sobre as definições que os sistemas educativos assumem. Por exemplo: o que é o construtivismo e como se traduz em uma interação em sala de aula? Que conhecimentos, práticas e valores definem um bom professor? Como saber se pratico um bom ensino? Essas questões são muito complexas, não têm uma única resposta e estão evoluindo. Por isso, é fundamental analisá-las dialogicamente e com base em evidências que permitam verificar se estão no caminho certo. Ensinar não pode nem deve ser improvisado.

O que falta na formação dos professores brasileiros?

O fato de a formação de professores ser muito ampla e não ter um foco específico no período entre zero e 6 ou 7 anos, limita a profundidade de preparação exigida a um professor de educação infantil. Penso também que é importante incorporar treinamento prático na formação inicial de professores. Estudantes de Pedagogia devem ter planos de treinamento desde o início da faculdade que lhes permitam aprender a ensinar, a compartilhar com colegas profissionais e a vincular a aprendizagem mais conceitual com a experiência real de ser um professor.

 

FONTE: O Globo

Foto: Leo Martins

Entrevista a: Luana Souza

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