“O concerto de música clássica tradicional é um tipo de evento que está mantendo os jovens longe da música clássica”, diz o violinista Jakob Encke.

 

“Minha família é cheia de músicos. Quis tocar violino quando ouvi meu avô ensaiando, com uns 4 anos. Também comecei a compor muito cedo, aos 6 anos. Me disseram que se eu quisesse chegar a algum lugar, teria que praticar, mas nunca fui forçado a nada. Acho que é importante manter a paixão no que você está fazendo.”

Conte algo que não sei.

O concerto de música clássica tradicional é um tipo de evento que está mantendo os jovens longe da música clássica. Para começar, o concerto não parece ser algo divertido na sua forma tradicional. Ir a um concerto de música clássica é visto como algo que só as pessoas mais ricas fazem. O modo como funciona o concerto, a coisa toda, tem esse efeito.

Por que você acha que os concertos afastam os jovens?

É muito claro que você não deve fazer nenhum barulho durante o concerto. Às vezes, se você estiver com uma gripe, por exemplo, e precisar tossir durante o espetáculo, o resto da plateia vai te olhar feio porque você não está combinando com o tipo de público que deveria estar assistindo. Acho que isso está afastando as pessoas porque não se pode relaxar da mesma forma como que se estivesse num show de jazz ou de rock. Quando você está num show de rock e gosta de alguma coisa, pode gritar. Quando você está num concerto de música clássica, se gostar de uma parte no meio e começar a aplaudir, as pessoas vão mandar você fazer silêncio porque deve bater palmas somente no final. Talvez isso seja um pouco antiquado e não esteja acompanhando as formas mais modernas de arte.

O que você acha que poderia ser feito para atrair novos públicos e mudar essa percepção?

Acho que existem várias possibilidades de transformar um concerto num grande evento. As pessoas já fazem muito isso, tem vários festivais tentando novos conceitos, usando tecnologia como instalações de luz e de vídeo, por exemplo. As pessoas acham que música clássica tem que ser pura e intimista, e isso é verdade de certo modo. Existem músicas que não combinam com essas instalações. E isso não deve ser usado para qualquer tipo de música também. Os artistas precisam pensar numa ideia que combine com a música e, ao mesmo tempo, não distraia o público. Porém, se você não for um especialista, os jovens por exemplo, que não conhecem tudo por trás de cada peça, podem se interessar mais com diferentes estímulos.

Vocês usam os instrumentos clássicos para tocar outros estilos musicais. Isso deveria acontecer mais para atrair novos públicos?

Não acho que todo quarteto de cordas precisa tocar jazz também para atingir o público jovem. Acho que os músicos precisam descobrir que mensagem querem passar para o público. E acho que não dá para ter medo de não satisfazer alguém porque sempre haverá críticas, é normal. É impossível agradar a todos. Ser mainstream significa não fazer coisas diferentes.

O que você acha da música brasileira?

O que me fascina é que a música brasileira é sempre positiva e faz você querer dançar e celebrar. A música brasileira faz as pessoas sorrirem, nunca te deixa triste. Quando você vê os músicos tocando, dá para ver que eles estão se divertindo. E na música clássica, com frequência, você sente que o músico está tentando tocar perfeitamente, mas não está se divertindo. Esse é problema geral que vejo em concertos, o que não existe na música brasileira. Esse sentimento de querer dançar e sorrir, que a música brasileira provoca, é algo que eu gosto bastante.

FONTE: O GLOBO

Entrevistador: MARTA SZPACENKOPF

LINK. https://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/jakob-encke-violinista-musica-brasileira-faz-as-pessoas-sorrirem-22342328