“O primeiro ensinamento de Buda é que a vida é sofrimento, não é felicidade”, diz a cientista social Kalinca Susin.

“Sou professora de Ciências Sociais da Royal Thimphu College do Butão, e vim ao Rio falar sobre a cultura himalaia e sobre o FIB — Felicidade Interna Bruta, um índice criado pelo governo butanês para mensurar o desenvolvimento do país em contraponto ao PIB.”

 

Conte algo que não sei.

Até os anos 1980, o Butão era um reino budista absolutamente isolado do mundo, sem contato ou relação diplomática com outro país. A TV só se estabeleceu por lá em 1998, e o primeiro meio de comunicação de massa já foi a internet. Não houve transição. Tanto é que eles não sabem o que é desktop ou laptop: a internet chegou com celulares e tablets. Eles pularam de uma comunicação física para a digital. Nunca tiveram telefone de linha. Hoje, ao atender um celular, não dizem “Quem fala?”, e sim “Onde você está?”, pois era isso que diziam ao se encontrarem nas trilhas: “Aonde está indo?” e “De onde está vindo?”, e essa pergunta se tornou a forma de atenderem ao celular.

A abertura do país tem causado preocupações?

Um dos principais desafios do país, hoje, é o equilíbrio entre os avanços da tecnologia e a preservação das tradições. Estão buscando entender, por exemplo, os limites entre o que é público e privado na internet, o quanto podem se expor ou o quanto estão expostos nas redes sociais. Alguns comentários nas redes rapidamente se espalham, e isso entra em choque com códigos de conduta do país.

A língua também é uma questão…

Pois é, os jovens butaneses não são mais educados em seu idioma local, o dzonga, mas em inglês. Eles não sabem mais escrever em dzonga. Falam um pouco… E quando vão tuitar, por exemplo, escrevem numa nova língua, um híbrido de inglês e dzonga. Isso tem acentuado um gap geracional, pois os pais e avós não entendem o que os jovens estão dizendo.

Para observar os avanços do capitalismo no país, o Butão criou o índice da Felicidade Interna Bruta (FIB). Como ele funciona?

Ele estipula itens que são mensurados e observados a fim de que seja possível avaliar o bem-estar do país, para ver até que ponto o encontro com a globalização econômica e com o avanço das tecnologias está afetando as tradições e hábitos nacionais, e que políticas públicas devem ser criadas para equilibrar isso. Todos estão atrás de uma solução para o mundo. É por isso que o FIB chamou a atenção quando foi criado. Ele não é um projeto para tornar as pessoas felizes.

Como o butanês se relaciona com a noção de felicidade?

Na verdade, o butanês não acha que precisa ser feliz. O primeiro ensinamento de Buda é que a vida é sofrimento, não é felicidade. Nascer, envelhecer, adoecer e morrer… O butanês não tem a ilusão de que a felicidade pode ser atingida, que é algo permanente, ou que o FIB vai mudar suas vidas. Muitos são céticos a esse projeto, pois é um projeto do governo, não partiu da população. Para as pessoas, a base de tudo são os valores do budismo, que é praticado por 98% da população do Butão, e isso se reflete em tudo: arquitetura, rituais, modos de se vestir, códigos de conduta.

Quais são as principais diferenças entre o FIB e PIB?

O FIB é multidimensional, e avalia bem-estar psicológico, saúde, educação, cultura, uso do tempo, boa governança, vitalidade comunitária, resiliência e diversidade ecológica, padrão de vida. Já o PIB é uma medida econômica e não inclui aspectos fundamentais da vida, como o meio ambiente. Se a água está poluída e as pessoas passam a comprar mais água, o PIB aumenta. Se há um desastre natural, os esforços mobilizados para lidar com isso podem aumentar o PIB. O PIB é uma medida adotada para representar uma situação de mundo em que a economia domina sobre todas as outras esferas. O FIB é um contraponto a isso, nasce com essa função, e é resultado de valores budistas, onde o equilíbrio é o valor a ser buscado. É o equilíbrio que nos aproxima do bem-estar.

Fonte: O Globo

Entrevistador: LUIZ FELIPE REIS

Link: https://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/kalinca-susin-cientista-social-butanes-nao-acha-que-precisa-ser-feliz-22351608