POESIAS SCHMIDTIANAS

O nosso poetinha, Vinicius de Moraes, em um momento de espontaneidade, dentro de um taxi com Paulo Mendes Campos, se expressou de repente: “Poeta mesmo é o Schmidt”. Paulo apenas comentou, concordando com um monossilábico: “É”.

Ora, esses comentários vindo desses dois poetas, afortunados e contemporâneos, coloca o poeta, Augusto F.Schmidt, no topo, com suas poesias schmidtianas, em um único pódio: de que suas poesias eram “poéticas” e “proféticas”. Assim, ele se desnudava, poética e profeticamente, com muita paixão, como se a sua alma lírica e intensa, convertesse a sua própria delação. O resultado dessa magia literária , foi transformada em um grande acervo. Era um insaciável.

Schmidt, o poeta, foi um integrante, da chamada segunda geração de 30, do Modernismo brasileiro. Foi ainda assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República do Brasil, no governo de Juscelino Kubitschek. Criou o famoso slogan de JK: “50 anos em 5”. Foi embaixador do Brasil na ONU e na então Comunidade Econômica Europeia. Editor e dono da Editora Schmidt no Rio de Janeiro, e responsável pelo lançamento da prata nobre literária dos poetas: Vinícius de Moraes (Caminho para a distância), Graciliano Ramos (Caetés), Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala), Rachel de Queiroz (João Miguel), Marques Rebelo (Oscarina), Jorge Amado (O país do Carnaval), Octávio de Faria (Maquiavel e o Brasil), Lúcio Cardoso (Maleita), entre outros.

Presidente do Club de Regatas Botafogo no Rio de Janeiro, fundador da cadeia de supermercado DISCO. Escreveu inúmeros discursos para o presidente JK e várias de suas ideias vieram a ser realizadas, como a criação da Operação Pan-Americana (OPA), uma iniciativa que iria inspirar a Aliança para o Progresso, criada pelos Estados Unidos na administração Kennedy.

Natural do Rio de Janeiro, nasceu no dia 18 de abril de 1906 e faleceu em 8 de fevereiro de 1965, com 59 anos. O seu primeiro livro, publicado em 1928, com o título de “Canto do Brasileiro” (Não quero mais o amor). O “Cantos do Liberto”( Canto I, Canto II e Canto III), foi o segundo livro no mesmo ano, obras essas imaturas de um jovem poeta promissor, de 22 anos de idade.

As belas poesias, que hão de permanecer, marcaram na figura desse poeta, um incrível arco cultural, que remonta o passado ao presente. Hoje e sempre, reconhecido nacional e internacionalmente pela sua obra, foi ele sem dúvida, fiel de si mesmo, com seus temas principais: morte, solidão, angústia, dor, melancolia, fuga, religião, patriotismo, alma, beleza, amor e o feminino.

Ele flertava com a poesia lírica, incansavelmente, buscando seus sentimentos na dança poética das palavras. Em seus momentos de extrema sensibilidade, sofria na alma, a dor de um poeta, visivelmente insatisfeito.

Casado com a bela Yedda Lemos Schmidt. Ela lançou em 1981, suas cartas de amor, que guardou-as esse tempo todo, escrita por ela e pelo poeta. Yedda entregou ao Instituto Estadual do Livro (INELIVRO), a publicação da obra, com o título “Cartas de Sempre”, que seguimos com algumas cartas-poema :

 

Yedda

Tu és o meu amor,

o meu mês de maio,

sinto saudades de

ter de partir um dia

sozinho;

Um beijo do teu

Amor

 

Yedda

Não retoquei os seus poemas. Bem o quis fazer,

mas me pareceu um sacrilégio. Li-os mil vezes. Amei

até os erros de máquina que eles contem. Conheço as

três pequenas folhas de papel como não conheço nada

tão bem.

Você é poesia, é toda a poesia.

Não imaginava tanto! Não queria tanto!

Schmidt

 

Meu amor querido

Sempre encontrei um jeito de descobrir onde estavas

e te escrever.

A saudade, a angústia que a tua partida me deixou

não tem limites. Fiquei desarvorado – e perdido na

grande cidade, como um órfão, como alguém que não

tem destino.

Minha vida és tu mesma, com todos os tormentos

que me dás, com todas as alegrias e preocupações que

a tua inquietação exerce sobre a minha inquietação.

Tenho trabalhado terrivelmente. Um mundo de negócios

está surgindo e eu dentro dele, procurando viver,

sentir e respirar.

A tua falta é uma solidão enorme.

 

Teu Schmidt (Responde)

 

Yedda

Vontade de que tuas mãos desçam como pássaros

que se recolhem nas fendas das torres, sobre a minha

cabeça fria da cinza das tardes. Vontade de ser acalentado

pelo seu sorriso, pelo seu silêncio de primavera.

Sentir o amor de tudo o que te cerca. O amor da tua

voz, o amor das flores que te agradecem de longe, que

saúdam a tua presença! Ficar ao teu lado sem desejos,

sem nenhum desejo, e espiar o caminhar de um cão

vadio que vai sem destino pela estrada já coberta com

a sombra leve da noite.

Augusto Frederico Schmidt

 

POESIAS

 

SONETO

Só preciso de poesia.

Não quero mais nada,

Não quero sorrisos,

Nem luxo, nem fama,

 

Nem bruxas, nem bodas

Nem gritos de guerra,

Nem doidos volteiros

Nas danças sensuais.

 

Só aspiro poesia. Poesia

E silêncio. No mundo fechado,

No escuro do tempo,

A luz da poesia é como a semente

Que na terra morre e logo apodrece,

E na vida renasce em flores e frutos.

 

JOSEFINA NO JARDIM

Entre as flores eu vi, sorrindo, um dia,

Entre os lírios e as alvas açucenas,

Essa frágil e fina flor morena,

Essa estranha e travessa Josefina.

Era na hora incerta do crepúsculo,

E o deserto jardim arfava ainda

Do amor de um sol abrasador, terrível,

– Era na hora vaga do crepúsculo!

 

Não foi sonho, meu Deus, não foi sonhando…

Ela estava entre as flores escondida,

E eu a vi a sorrir dentre a folhagem…

 

Foi o vento que veio, de repente,

Foi o vento da tarde inquieto e errante

Que afastou para longe a doce imagem…

 

MOMENTO

Desejo de não ser nem herói e nem poeta

Desejo de não ser senão feliz e calmo.

Desejo das volúpias castas e sem sombra

Dos fins de jantar nas casas burguesas

Desejo manso das moringas de água fresca

Das flores eternas nos vasos verdes.

Desejo dos filhos crescendo vivos e surpreendentes

Desejo de vestidos de linho azul da esposa amada.

 

Oh! Não as tentaculares investidas para o alto

E o tédio das cidades sacrificadas.

Desejo de integração no cotidiano.

Desejo de passar em silêncio, sem brilho.

E desaparecer em Deus – com pouco sofrimento

E com a ternura dos que a vida não maltratou.

 

Por que chorar?

Por que chorar se o céu está róseo

Se as flores estão nas trepadeiras balançando, ao sopro

leve do vento?

Por que chorar se há felicidade nos caminhos,

Se há sinos batendo nas aldeias de Portugal?

Por que chorar se os meninos estão nos circos

Se a poesia está rolando nas pedras da serra do nunca mais?

Por que chorar se há clarinetes entardecendo

Se há missas no fundo do Brasil?

Por que chorar se há virgens morrendo

Se há doentes sorrindo

Se há estrelas no céu de junho

Por que chorar?

Por que chorar se há jasmins nos caminhos

E moças de branco namoradas

Por que chorar?

Por que chorar – Meu Deus, se estou feliz e pobre,

Feliz como os pobres desconhecidos dos hospitais

Feliz como os cegos para quem a luz é mais bela do que a luz

Feliz como os mendigos alimentados

Feliz como os desamados que tiveram um beijo

Feliz como as velhas dançarinas aplaudidas de repente

Feliz como um prisioneiro dormindo

Por que chorar?

 

ADEUS

Não entenderás nunca os motivos que me fizeram atravessar

A grande noite, a fria noite e a tua indiferença.

Vim porque a minha hora estava se tornando longa demais.

E o frio já me gelava

Vim porque o escuro estava pesando sobre os meus olhos

E o meu ser estava encolhido, longe da morte e da vida

Longe de tudo!

 

Vim porque não podia, porque era um condenado

Porque precisava de ti.

Vim porque me prometeste um dia o sossego

E eu acreditei nas tuas palavras.

Vim porque não podia mais!

 

Sei porém que és pior do que o escuro e o frio

Sei que és mais terrível do que a solidão

Sei que és o meu próprio vazio

E que o teu mundo não é o meu.

Sei o que pensaste quando me viste entrar

Eras a minha ilusão final

Hoje nem mais meu desespero tu és.

Minhas palavras te são indiferentes

Eu te sou indiferente.

Mas antes de partir quero te dizer adeus!

 

Quero demorar-me sobre o teu túmulo porque é o meu túmulo

Quero chorar sobre o teu corpo porque é meu corpo

Quero demorar-me um minuto ao teu lado

Porque és eu mesmo, oh! Minha sombra, meu engano e minha dor!

 

 

 

Colaborou: Tania Ignatiuk

Fontes diversas