O contra é necessário. Se não houvesse tristeza, talvez não soubéssemos o que é alegria. A identidade se afirma porque tem coisas contrárias a ela. Se tudo fosse a mesma coisa, não haveria a coisa mesma.

Porém, existe uma outra espécie de contra. Esse contra é chato, pois finca o pé numa teimosia que irrita. Quando todos concordam, ele discorda. Quando todos acham bonito, ele encontra uma feiúra. Quando todos elogiam, ele baixa os olhos, torce os lábios e apresenta os defeitos. Trata-se de alguém bastante conhecido: o Do Contra.

Fulano é Do Contra… Em toda família, roda de amigos, em qualquer grupo de pessoas sempre há o Do Contra.

Você fala de alguém que morreu depois de anos de sofrimento. Descansou. Pois o Do Contra vai dizer que não: na verdade, o cara morreu sofrendo mais ainda, pois queria ter vivido sem sofrimento e teve que morrer.

Alguém chega alegre, contando que a fé ajudou, que ele acreditou e agora as coisas estão se resolvendo… e o Do Contra vai dizer que a fé é uma coisa relativa e que as coisas se resolveriam de qualquer jeito.

Você diz que estamos precisando de chuva e o Do Contra rebate que as enchentes são terríveis… você condena os cachorros soltos na rua e o Do Contra vem com uma teoria de que esses cachorros não podem ser recolhidos porque ajudam a controlar o equilíbrio ecológico da cidade… você dá gargalhada e o Do Contra fica que nem estátua… você vai e o Do Contra não quer ir…

Nos filmes, o Do Conta torce pro bandido.

Quando o Brasil joga, o Do Conta vibra com o adversário.

Quando o Do Contra pega uma bula pra ler, ele vai direto nas contraindicações.

Se ele vai dançar, é a contradança.

No teatro, o Do Contra fica doidinho pra ser o contrarregra.

Adivinhe o que o Do Contra faz quando canta? Contracanto.

E aquele Do Contra que discorda pra concordar?

– Você está com a saúde boa, com um astral legal.

Aí vem a contrapartida:

– Não é que eu esteja com a saúde boa, eu estou é sem doença.

A bem da verdade, o Do Contra merece uma estátua na filosofia e uma outra na literatura. Se não fosse o Do Contra, o que seria do Hegel? O Do Contra é mais gauche do que Drummond, pois Drummond nem canhoto era.

A identidade precisa do contra pra se afirmar. No entanto, identidade e contra se relativizam. Por isso que a coisa dá certo. Com o Do Contra é diferente (aliás, com o Do Contra tudo é diferente): ele é radical e não admite outra circunstância.

Lembra-se daquelas propagandas que diziam: “Nove entre dez pessoas usam o produto tal…”? Então… o Do Contra é esse unzinho que fica faltando pra completar as dez.

 

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José Antônio Oliveira de Resende

José Antônio Oliveira de Resende é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. Escritor, cronista, poeta, compositor, ator e autor de várias peças de teatro. É autor de livros tanto na área acadêmica quanto na literatura. Suas crônicas podem ser lidas nos jornais Tribuna Sanjoanense e Folha das Vertentes, ambos de São João del-Rei, e Jornal das Lajes, da cidade de Resende Costa.

e-mail: jresende@mgconecta.com.br

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