Em Paris há mais de 40 anos, carioca chama a atenção com projetos arrojados que destacam desde a herança romana na França até a cidade vertical em Taiwan

 TIJOLO COM TIJOLO NUM DESENHO MÁGICO

PARIS — Instalada num amplo escritório em Paris, onde vive há mais de 40 anos, a carioca Elizabeth de Portzamparc está construindo praças nas alturas. Mas não se considera arquiteta. “Eu pratico arquitetura”, prefere. “E urbanismo, fotografia, design, desenho”.

Num meio ainda predominantemente masculino, Elizabeth tem vencido importantes concursos para realizar projetos franceses e internacionais. Sua mais recente criação, inaugurada em junho, é o Museu de la Romanité, dedicado à herança do Império Romano na cidade francesa de Nîmes.

— Esse é uma espécie de joia para mim, é o menorzinho dos atuais projetos (o terreno tem cerca de 9.100 m²), mas o mais impressionante — diz, de malas prontas para viajar até Taiwan, no dia seguinte, para discutir seu projeto do Centro de Operações de Inteligência de Taichung.

Futuro centro cultural digital de 44 andares, o prédio foi encomendado pelas autoridades locais como um símbolo da tecnologia digital para a cidade. A ideia de Elizabeth foi além.

O prédio terá vários espaços para encontros e passeios a pé. A cada quatro andares, existirão praças, em permanente comunicação com o restante do edifício, sem barreiras, exatamente como no conceito de cidade vertical, com bairros e sub-bairros. Será seu “hino a um projeto humanista”, como ela diz:

— Para mim, a perda da inteligência vem do excesso de tecnologia. Precisamos promover encontros e estimular a inteligência coletiva para encontrar, juntos, as soluções de que precisamos.

Elizabeth vê a cidade vertical, a flexibilidade e a sustentabilidade dos materiais como “soluções universais” para o dilema da superpopulação das cidades. Mas as respostas, ela pondera, diferem quando se trata das zonas urbanas da Ásia e América Latina, mais afetadas pela migração e sem as condições de rede sanitária e viária das aglomerações europeias. O sistema de autoconstrução, diz ela, é vital nesses locais, com arquitetos que possam auxiliar moradores a conceber o espaço onde vivem.

— No Rio, a maioria das pessoas que moram em comunidades prefere continuar onde está, por conta dos vínculos sociais. Várias moradias estão abandonadas pois não foram concebidas em modo participativo. O poder público pensa a arquitetura social como um produto —defende.

 

SE  SOFRI?  O QUE VOCE ACHA?

Recentemente, saíram da prancheta dela a Grande Biblioteca de Documentação do Campus Condorcet, em Aubervilliers; a estação de Le Bourget, uma das cinco inicialmente previstas no projeto da Grande Paris; e o Science Hall of Zhangjiang Science City, a Cidade das Ciências, em Xangai.

Morar e estudar na França era um antigo desejo de juventude, que foi precipitado por sua militância contra a ditadura militar no Brasil. Em 1969, Elizabeth abandonou o curso de Sociologia na PUC-RJ e se inscreveu na Universidade Sorbonne, em Paris. Seu sobrenome é herdado do marido, o reputado arquiteto francês Christian de Portzamparc, que projetou a Cidade das Artes, na Barra da Tijuca.

— Se eu sofri? O que você acha? Mulher, brasileira, com marido conhecido… Mas nunca perdi a fé na minha capacidade de fazer uma obra. E sempre soube me defender. Às vezes, as pessoas tinham medo de mim, porque eu falo, existo — diz a “praticante de arquitetura”, que este ano lançará um livro sobre sua trajetória.

Quanto à “joia” de Nîmes, Elizabeth cita o “efeito Bilbao” (referência ao Museu Guggenheim, de Frank Gehry, que agitou a cidade espanhola):

— Esperavam 300 visitantes por dia. Já são quase mil.

Revestida de mosaicos de vidro, a construção estabelece um diálogo de mais de 2 mil anos com as antigas arenas romanas situadas no entorno. E é um dos principais trunfos da candidatura de Nîmes a Patrimônio Mundial, ao exibir os tesouros da cidade: os vestígios romanos de templos e arenas e também o acervo de coleções.

Está ali a essência da arquitetura contemporânea segundo Elizabeth: leveza e urbanidade, num projeto público, flexível e aberto para a cidade. Sua equipe de trabalho, afinal, conta com um “núcleo de sustentabilidade”, integrado por dois arquitetos, um sociólogo e uma cientista política.

 

Fonte:  O Globo – 1º.09.2018 – Segundo Caderno – Pag. 2

Jornalista: Fernando Eichenberg

Foto: Steve Murez

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