A literatura é um exercício de recriação e adaptação do que já disseram antes de nós. Poemas, romances, contos, crônicas e canções vivem fazendo novas costuras em poemas, romances, contos, crônicas e canções que já foram escritos antes.

Até mesmo as frases e os causos sem pretensão literária e que chegam fortuitamente até nós são refeitos e recontados, ganhando a roupagem complexa da autoria.Por isso que o autor não tem autoridade sobre o seu texto: a tessitura da sua autoridade é a sua alteridade.

Machado de Assis incorporou o dilema de Otelo no seu jeito de contar a narrativa do Dom Casmurro. Otelo, Desdêmona e Iago deixaram de ser personagens e passaram a ser focosde possíveis narrações.

José de Alencar pegou carona na bíblia: na última sequência do seu Guarani, misturou, de modo criativo e sutil, Adão e Eva, o dilúvio e a perspectiva de uma nova humanidade.

E o Shakespeare? Foi lá na mitologia grega e trouxe o mito de Píramo e Tisbe. Recriou com maestria a história do infeliz casal em Romeu e Julieta, transcendendo a mera paixão para criar outras significações.

Há tanto tempo eu venho tentando fazer literatura. Há tanto tempo eu venho dialogando com o que escreveram antes de mim, no intuito de burilar o meu próprio estilo, o meu próprio viés, a minha própria recriação. Mesmo depois de morto, ainda continuarei a me entrelaçar nas linhas de outros autores como um fantasma que gosta de assustar – não pelo terror… mas pela surpresa!

Foi pensando nisso que elaborei uns epitáfios para o meu túmulo, todos eles ressituando o que já disseram antes de mim. Fazer o quê? É justamente a intertextualidade que não deixa a palavra virar defunto… mesmo que o autor vire.

Eis alguns de meus epitáfios:

Machado de Assis disse que “O menino é o pai do homem”. Meu epitáfio: O homem é o defunto do menino.

Sartre provoca: “O inferno são os outros.” Meu epitáfio: Se o inferno são os outros, então eu não fui pra lá, pois estou sozinho aqui dentro.

Pois é, Shakespeare: “Há algo de podre no reino da Dinamarca.” Meu epitáfio: Há algo de podre… e não é só no reino da Dinamarca!

Aproveitei o Guimarães Rosa: “Viver é perigoso.” Meu epitáfio: Pode ser que viver seja perigoso, mas morrer não é a salvação.

Veja só o Gregório de Matos: “A parte sem o todo não é parte” Meu epitáfio: Mesmo com as partes, meu todo parte.

Você já estudou na escola aquela frase da esquadra do Cabral: “Terra à vista!” Meu epitáfio: Terra na vista!

Até mesmo o Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos.” Meu epitáfio: O essencial é indizível aos ossos.

Epitáfios de mim… Talvez um epitáfio para cada morte que experimentei. Talvez um epitáfio para cada renascer das coisas que são enterradas.

 

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José Antônio Oliveira de Resende
José Antônio Oliveira de Resende

José Antônio Oliveira de Resende é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. Escritor, cronista, poeta, compositor, ator e autor de várias peças de teatro. É autor de livros tanto na área acadêmica quanto na literatura. Suas crônicas podem ser lidas nos jornais Tribuna Sanjoanense e Folha das Vertentes, ambos de São João del-Rei, e Jornal das Lajes, da cidade de Resende Costa.

e-mail: jresende@mgconecta.com.br