Como o corpo pode ser usado como um instrumento de atuação social e política no Brasil hoje? A pergunta foi feita pelo curador Thyago Nogueira a seis artistas brasileiros contemporâneos. Bárbara Wagner, Jonathas de Andrade, Sofia Borges, Letícia Ramos e os coletivos Mídia Ninja e Garapa apresentam suas respostas em “Corpo a Corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo”, que chegou à sede carioca do Instituto Moreira Salles (IMS) no dia 24 de março. Depois de uma estreia aplaudida no então recém-inaugurado IMS Paulista, a inauguração no Rio.

Desenvolvidas em conjunto com Nogueira, coordenador de Fotografia Contemporânea do IMS e editor da revista ZUM, as obras buscam explorar novos suportes que envolvam também o corpo do visitante. É o caso, por exemplo, da instalação “Eu, Mestiço” de Jonathas de Andrade. O trabalho se baseia na pesquisa “Raça e Classe no Brasil Rural”, realizada pela Universidade de Columbia junto da UNESCO nos anos 1950. Exibindo imagens de pessoas de diferentes etnias acompanhadas de um questionário peculiar – a partir das fotografias, quais destas pessoas parece mais simpática, mais honesta, mais corajosa? –, seus resultados mostraram uma sociedade tão preconceituosa quanto a de hoje.

Também as obras dos coletivos Mídia Ninja e Garapa são experimentais em termos de suporte. O Garapa, ganhador da segunda Bolsa de Fotografia ZUM/IMS, em 2014, exibe na coletiva um livro-manifesto feito a partir de vídeos de linchamentos encontrados no Youtube, intitulado “Postais para Charles Lynch”. Já o Mídia Ninja, fiel às suas origens internéticas, participa com a instalação #Ao vivo, um arquivo de 90 transmissões ao vivo, na íntegra, feitas entre 2013 e 2017. A obra ainda permite que o grupo, que hoje constitui uma das maiores iniciativas de mídia independente do planeta, transmita ao vivo, nas salas expositivas, tudo o que estiverem cobrindo no país naquele momento.

A questão social que atravessa toda a exposição ganha outros significados a partir dos trabalhos de Letícia Ramos, Sofia Borges e Bárbara Wagner – a última, ganhadora do Prêmio PIPA no ano passado. Sofia, em cartaz no MoMA nova-iorquino desde a semana passada, exibe a instalação “A máscara, o gesto e o papel”. A obra nasceu de uma visita ao Congresso Nacional, em Brasília, em fevereiro de 2017. Através de dez fotografias, ela representa o sistema de pesos e contrapesos dos jogos de poder aqui e lá fora.

Já Letícia Ramos se inspirou em uma foto de um manifestante sendo derrubado por um jato de canhão de água para criar “A resistência do corpo”. Demonstrando como imagens podem servir como forma de opressão real ou simbólica, ela testa as reações de um corpo diante de um jato potente. Por fim, Bárbara Wagner apresenta duas obras na coletiva. A primeira, “À procura do 5º elemento”, consiste em uma galeria da fama com alguns dos 300 garotos que participaram de um reality show para escolher o novo MC. O trabalho retrata uma geração acostumada às selfies e às redes sociais, que sabe usar a pose e a performance de palco para falar de seus anseios e ascender socialmente. A segunda, produzida com seu parceiro contumaz, Benjamin de Búrca, é “Terremoto Santo”. No filme musical gravado em Pernambuco, jovens cantores de música gospel encenam videoclipes com suas próprias composições, revelando aspectos sociais, econômicos e estéticos da prática pentecostal.

 

SERVIÇO:

“Corpo a Corpo: a disputa das imagens”.

Curadoria: de Thyago Nogueira e assistência de Valentina Tong

A exposição fica em cartaz até o dia: 22 de julho de 2018

Contato: T: (21) 3284-7400

Endereço:

Instituto Moreira Salles Rio de Janeiro (IMS RJ)
Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea
Funcionamento: ter – dom, 11hs às 20hs.