Quando se fazia noite, eu ia jantar numa casa de pasto perto da estação. Deixava na serraria apenas o velho vigia. Uma vez ou outra, ia espairecer no único cinema de Nova Iguaçu. Lembro-me de que foi nesse pobre e humilde cinema mambembe, com seus bancos de pinho, que vi um filme de amor que me pareceu maravilhoso. Não me lembro dos nomes dos atores que figuraram nessa comovente história, contada com tocante simplicidade. Até hoje – já lá se vão tantos anos, bem mais de trinta, pelo menos – não me esqueci do enredo. Tratava-se de um rapaz tímido, uma espécie de gigante com alma de criança, que não tivera coragem de declarar-se à mulher do seu amor e acabara perdendo-a para um amigo mais resoluto, menos perplexo. O herói do filme assiste ao casamento de sua amada, segue-lhe a vida, vê nascerem os filhos do amigo, sempre guardando o segredo de seu amor. Esse filme, envolto numa sombra de melancolia, com a marca pungente dos destinos partidos, exerceu em mim, naquele momento de solidão, de tristeza, de mocidade angustiada, uma influência decisiva. Já havia no meu ser – o que eu mesmo desconhecia, tanto que não lograva fixar as minhas próprias fundações, calcular os meus pontos de resistência ou fragilidade – uma tendência para amores impossíveis, irrealizados e irrealizáveis… O filme veio provocar ainda mais certas reações sempre mal definidas, aprofundar uma inclinação nostálgica e uma certa incapacidade de viver coisas que o mundo oferece com normalidade e simplicidade aos demais mortais. Via eu, nesse longínquo tempo da primeira juventude, os seres se encontrarem, se enraizarem uns nos outros, se amarem; mas tudo isso me parecia acima do que me era lícito esperar do mundo. Havia alguma coisa de tardonhamente romântico no meu ser. As raparigas que eu encontrava e desejava, logo se revestiam de inalcansável importância, transformavam-se em sonhos, em seres inatingíveis e intocáveis, ou passavam a representar o papel de mensageiras do impossível.

Sabia eu que necessitava amar; ser amado, porém, não era o meu destino. Algumas vezes, no entanto, me surpreendia. É que a realidade me informava o contrário. Recebia mesmo demonstrações bastante positivas, provas que seriam suficientes para qualquer outro menos inseguro do que eu. Mas uma espécie de pessimismo sobre mim mesmo, e uma invencível desconfiança impediam-me de reconhecer a própria evidência. L., por exemplo, pousara sua magra e branca mão sobre as minhas durante um concerto de piano. Abandonara-me sua mão, tão apetecida pelo meu desejo adolescente, e eu ficara atônito e não compreendera, não quisera aceitar a minha imprevista felicidade. Que se passava comigo? O tempo corrigiu muitas coisas, adaptou-me melhor à própria fortuna do amor; mas estou retratando um momento distante e impreciso em que eu era assim mesmo.

Mas, voltando a Nova Iguaçu e à serraria onde eu trabalhava, reencontro-me, de novo, caminhando depois da sessão de cinema pela rua esburacada, atravessando a linha férrea e voltando ao escritório, onde se improvisava, todas as noites, um quarto de dormir para mim. Transformava, a mulher do vigia, um sofá em cama; estendia os lençóis, esquentava um copo de leite, dando-me no desamparo desses momentos ásperos uma sensação de conforto e de carinho.

Foi nesse instante de minha vida que veio visitar-me um novo amor, logo por mim considerado impossível. Todas as manhãs, em frente à serraria, a caminho de uma obrigação cotidiana qualquer, passava uma jovem criatura. Teria, calculo hoje, seus dezesseis anos. Era mais gorda do que magra; morena e pálida. Portava quase sempre um gracioso chapéu-de-sol – que se chamava sombrinha – e trazia uns livros e rolos de papel que deviam ser textos de músicas. Depreendo que saía de casa para receber lições de piano. Seus cabelos lisos, negros e longos caíam-lhe pelos ombros. Era a filha de um político local que possuía, segundo me informaram, uma plantação em Queimados. Às dez horas da manhã ou pouco antes, já me encontrava eu na janela do escritório para ver passar aquela que, sem o saber, se tornara a meus olhos a encarnação do eterno feminino. Revejo-a bem. Não caminhava como as moças de hoje, que aprendem a andar bem nas escolas de charme, que conhecem os movimentos e os ritmos que tanto impressionam os homens.

A minha visão do amor era solene, lenta, soberana em sua marcha. Seus pés não pisavam nuvens, não se desviavam da rota; em volteios graciosos, apoiava-se ela fortemente no chão. Se pelo caminhar de uma pessoa podem-se descobrir os seus ritmos interiores, a sua maneira de ser, a minha rapariga de Nova Iguaçu deveria ser uma pessoa tranqüila, não temerosa do dia de amanhã, capaz de dirigir-se pela razão, uma mulher forte e decidida. Mas tudo isso era harmoniosamente combinado com uma espécie de encanto físico, que não se poderia chamar de beleza, mas que era misterioso encantamento.

Essa sedução, esse enigmático dom de atrair alimentava o meu sonho.