A Fundação Yedda & Augusto Frederico Schmidt teve a honra e o imenso prazer de entrevistar o escritor, jornalista, editor e ex-professor de Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro do PEN Clube do Brasil e da Academia Carioca de Letras, Waldir Ribeiro do Val.

Waldir Riberio do Val

Waldir é um arquivo vivo da história da Literatura brasileira e trabalha para a sobrevivência e exaltação da mesma. Ele mantém, por conta própria, o Museu do Val de Literatura.

O extenso e poderoso currículo já credencia Waldir como pessoa interessantíssima e de toda a atenção possível. Para a Fundação o interesse ganha mais um ingrediente: Waldir foi secretário literário do nosso poeta Augusto Frederico Schmidt.

Suas histórias e lembranças nos aproximam da rotina de trabalho de Schmidt, do seu processo de criação e do seu modo de vida.

Waldir vem trabalhando numa biografia sobre a vida e obra de Augusto Frederico Schmidt, que está próxima de ser concluída e será lançada em breve. Como Waldir mesmo diz em nossa entrevista: “Um poeta admirável e infelizmente esquecido pela geração atual.”

Abaixo nossa entrevista com o Waldir Ribeiro do Val. As perguntas foram elaboradas pela Jornalista e colaboradora da Fundação, Leticia Mey:

 

Conte-nos como o senhor conheceu Augusto Frederico Schmidt e como foi trabalhar com ele:

Eu tive uma surpresa, quando numa tarde, recebi um telefonema: – “Aqui é o Augusto Frederico Schmidt e quero falar com Waldir Ribeiro do Val”. Eu perguntei atônito: – “Quem está falando mesmo?” Ele era um homem importantíssimo e eu um jovem escritor.

Eu tinha feito a edição das poesias de Raimundo Correia para a Livraria São José e como o Schmidt também iria realizar um trabalho sobre Raimundo Correia, procurou saber quem eu era. Ele queria conversar comigo já no dia seguinte. Ele me passou o endereço e no outro dia eu estava lá, na Paula Freitas, 20, as 19:00h. Me surge aquele senhor, que andava arrastando um pouco o corpo. Eu disse: “Me desculpe ter aparecido nessa hora, atrapalhando seu jantar.” E ele respondeu: “Ai de mim! Eu não posso jantar!” Ele era diabético.

Eu senti tanta pena dele! (risos). Ele me convidou para entrar e começou a perguntar sobre mim e minha vida. Ele, que veja só, me chamava de senhor, me convidou para trabalhar com ele, lendo e corrigindo os textos que ele produzia. Comecei no dia seguinte.

 

Como era a rotina de trabalho do Schmidt?

Schmidt acordava muito cedo, madrugando. Escrevia os artigos a mão, principalmente para o jornal O Globo. A secretária os datilografava e encaminhava-os para mim, para que eu fizesse as correções, se fosse preciso. Depois desse processo eu ia na redação do jornal para ser publicado o artigo.

 

De todo o tempo em que trabalharam juntos, qual o período mais marcante para o senhor? Por quê?

Acho que durante a Operação Pan Americana, idealizada e realizada por Schmidt. Tivemos muito trabalho, muita atividade. Recebíamos a visita de diversos políticos: deputados, o próprio Juscelino. Foi um período muito intenso e de muita produtividade.

 

Qual a maior qualidade e o maior defeito do Poeta?

Como qualidade eu acho que de uma forma geral ele era uma pessoa boníssima. Grande coração, generoso, muito amigo das pessoas, inteligentíssimo, um poeta excepcional. Acho que como defeito posso dizer a desorganização, mas os poetas podem ser desorganizados.

 

Como era o processo de escrita do poeta?

Ele não tinha um processo. Ele escrevia a noite, de madrugada, a qualquer hora. Ele mesmo dizia que acordava muito cedo, com o Sol ainda nascendo e já produzia.

 

Como era a convivência com o casal?

Com o casal eu não tive convivência, Dona Yedda esteve no escritório apenas uma ou duas vezes. Ela passava mais tempo em Paris. Uma vez Dona Yedda ligou de Paris e o Schmidt informou que um passarinho deles havia morrido. E terminou: “Daqui a pouco este passarinho aqui morre também.”, demonstrando a saudade que sentia de Yedda.

 

Qual o período mais marcante dessa época em que os senhores conviveram?

Todos foram marcantes, mas talvez o mais marcante foi quando eu sugeri que ele publicasse aqueles artigos políticos mais incisivos contra Jango e os reunissem num livro. Ele gostou da ideia, abri minha primeira Editora a “Edições do Val” e lançamos o livro “Prelúdio a Revolução”. Nessa época ficamos muito próximos. Ele me deu a liberdade de escolher os artigos políticos que iriam compor o livro.

 

Como era o convívio de Schmidt e Juscelino?

Eram muito amigos, muito próximos! Eles se falavam quase que diariamente. Juscelino frequentava o apartamento de Schmidt. As vezes almoçavam juntos. Eu mesmo tive o prazer de almoçar com os dois em algumas oportunidades. Tinham toda a intimidade e Schmidt o tratava por Juscelino, não de presidente.

 

Quem eram os amigos mais próximos do Schmidt, com quem ele falava diariamente?

Schmidt tinha muitos amigos e todos sempre presentes. Mas o principal deles era Roberto Marinho. Eles se falavam diariamente. Israel Klabin também era um amigo de verdade de Schmidt. Tenho cartas trocadas pelos dois que comprovam essa relação de carinho e respeito. E o próprio Juscelino, Schmidt certa ocasião disse para o presidente: “Eu sou mais Juscelinista que você!”

 

Fale um pouco sobre a atuação de Schmidt no governo Juscelino, como ghost writer e como embaixador:

Ele escreveu alguns discursos, não era o único, pois havia outros escritores talentosos à disposição do presidente. Mas certamente era ele que escrevia o que Juscelino gostaria de falar. E como embaixador eu destacaria a atuação de Schmidt na Operação Pan Americana, que foi uma invenção do próprio Schmidt.

 

Pode comentar sobre o Schmidt comerciante e industrial?

Eu não poderia falar muito, pois não convivi muito com esse lado do Schmidt. Quando o conheci ele ia diariamente ao escritório da Orquima, de que era presidente.

 

Com tantas atividades tão díspares, como o Poeta administrava seu tempo?

Segundo o que ele mesmo dizia, ele era um comerciante que não exercia o comércio. Ele era o homem das ideias. A Orquima (indústria precursora da energia nuclear brasileira encampada pela Nuclebrás em 1975) é um exemplo. Ele não tinha uma agenda de compromissos. Mas dormia muito pouco. Ia se deitar tarde, acordava cedo demais. Incansável.

 

Como você descreveria o poeta para a eternidade?

Uma pessoa de grande coração que não tinha ódio de ninguém, mesmo que não gostassem dele. Generoso demais e ajudou inúmeras pessoas na mais absoluta discrição. Dono de uma inteligência aguda. Um escritor, jornalista que dominava todo tipo de assunto, poderia falar sobre tudo. Um poeta admirável e infelizmente esquecido pela geração atual.