“Tenho 55 anos, nasci em São Paulo e passei quase minha vida inteira lá. Comecei como ator, mas hoje dirijo, escrevo e produzo teatro. Tudo o que queria era espaço para fazer meu trabalho, desenvolver o que acredito. Isso me levou a criar a Conteúdo Teatral, que há 15 anos trabalha com gestão e programação de espetáculos.”

Isser Korik, diretor teatral

 

Conte algo que não sei.

A crise é um processo depressivo; a arte, um processo criativo. Qualquer arte, mesmo aquela comédia boba, transforma: você dá risadas porque alguma coisa fez você enxergar a si mesmo e à sua sociedade em papéis ridículos. As pessoas que consomem um produto artístico saem pensando diferente. Pensamentos diferentes vão dar novos instrumentos para que superem problemas pessoais. Aquela risada vai fazê-las pensar “por que me comporto assim?”, vai levá-las a buscar meios de se modificarem e tirá-las de crises que estejam vivendo, incluindo a atual.

Na crise, o artista deve se levar pela demanda ou ditar as regras de produção?

O bom artista é aquele que consegue se conectar com o público. Isso não quer dizer que você deve fazer qualquer coisa, mas tem de estar antenado para o que o público busca. O teatro popular sempre foi assim: não dá para se voltar para a classe artística ou para a crítica. Isso não significa que se precise fazer um teatro marqueteiro. Sempre há busca por bom conteúdo, porque o público está interessado.

E há espaço para o sonho de se viver de arte?

Sempre. Digo que existem três tipos de ator. O ator celebridade, que administra carreira versus exposição na mídia. O operário, aquele que está atuando em papel secundário numa peça e faz comercial e todas as atividades ligadas a isso, para sobreviver. E o empreendedor, que se produz, batalha. Os três caminhos podem levar a Roma, mas todos requerem esforço.

Com a exposição permitida pela internet, as pessoas estão “atuando” mais?

Youtubers são um sucesso porque tem gente que quer assistir. Normalmente, é um personagem que a pessoa cria, baseado nela mesma, mas exagerado, por cinco minutos, e que agrada. Quando a pessoa assiste a uma peça e pensa “caramba, esse ator é ótimo”, não sabe que ele demorou meses, e a energia dele está concentrada para ser usada por duas horas no palco, encantando a plateia. Acabou a peça, ele desmonta e vai se recuperar. O youtuber faz o mesmo: joga aquele post de cinco minutos, depois de passar o dia pensando no que fazer, e consegue agradar. Tudo é válido. São escolhas pessoais.

Se precisasse relacionar o tempo atual a um movimento artístico, qual seria?

A arte sempre tem um papel cíclico. O ciclo da arte caminha entre o que é centrado no ser humano e o que é focado numa coisa externa. Uma hora o momento é teocrático, mas, depois, volta para o ser humano. Aí, vai para o coletivo e, depois, volta para o ser humano. E vai para os arquétipos e volta para o ser humano. Cada movimento dialoga com sua respectiva cultura.

Os desafios estão indo para o ser humano ou o coletivo?

Todo esse movimento político está repensando o coletivo. Eu acho que essa nova realidade de ruas é o ser humano colocando-se no coletivo. Ele vai a uma passeata porque se identifica, mesmo sem engajamento político.

A tendência a um mundo isolacionista não o preocupa?

Às vezes, o coletivo não é no sentido global. O global tenta ser tão universal que vira individual. O que é o Brexit? É a reação da identidade britânica: “Não quero ser um europeu, quero ser britânico.” O mesmo com o sucesso de Trump: “América para os americanos.” Particularmente, não gosto disso, mas esses ciclos estão acontecendo.

 

Por ÁRION LUCAS, para o jornal O Globo, Coluna “Conte Algo que não Sei”, página 2, Terça, 17 de Janeiro de 2017.