Coordenadora de Conservação e Restauração do Masp veio ao Rio acompanhar exposição com obras do museu paulistano no CCBB

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“Tenho 48 anos e sou mineira. Minha graduação foi na Escola de Belas Artes da UFRJ. Sou especialista em pintura europeia, fiz pós-graduação na UFMG e fui morar em São Paulo ao me casar. Há 18 anos, uma professora me indicou para substituir a restauradora do Masp, que ia se mudar para a Holanda.”

Conte algo que não sei.

As pessoas acham que montar uma exposição é pendurar quadros na parede. Nosso trabalho começa muitos meses antes, com a análise da lista de obras escolhidas pela curadoria, para checar se há alguma muito frágil ou em estado de conservação precário, sem condição de ser exposta ou viajar. Vamos ao espaço interessado para verificar segurança, umidade e temperatura. Por fim, as obras precisam ser preparadas para o transporte.

Como é feita essa preparação?

Só emprestamos obras protegidas por um vidro alemão específico, que é antirreflexo, antiestilhaçamento e que filtra 99% dos raios ultravioleta. Isso ajuda na preservação, protege contra acidentes no contato do público. Por trás, ainda existe uma proteção de policarbonato alveolar cristal. As obras em madeira já saem com uma vitrine climatizada, que ajusta a umidade relativa a que ela está exposta. Para cada obra, você tem uma quantidade de lux (unidade de medida da iluminância) aceitável. Por isso, proibimos fotografias. Nada disso eu invento. Exijo o que tem como norma, o que foi estudado.

Existe um padrão internacional?

O padrão é relativo no campo da conservação. A minha obra pode viver muito bem com 60% de umidade relativa do ar. Se um museu internacional diz que 50% são adequados, vão ser, se a obra for mantida assim. Pior do que ter umidade um pouco mais alta ou mais baixa é a oscilação. Em uma exposição na Cidade do México, vi obras em excelente estado com 35% de umidade. Mas nem todos os museus têm meios para conservar as obras.

A falta de regulamentação da profissão atrapalha a obtenção desses meios?

Os museus aprendem com o que têm. A desregulamentação da profissão em nada afeta o meu trabalho, mas é catastrófico para a conservação do patrimônio nacional. Eu tenho formação, mas pode chegar alguém que fez artes, que tem jeito para a coisa, e restaurar uma obra. Mas não é só habilidade manual que conta. A restauração e a conservação são muito científicas: exigem conhecimento de química, física, biologia, artes, história do artista e da peça. Os cursos sofrem sem apoio financeiro.

E como você vê o Brasil no campo da conservação e da restauração?

O Brasil tende a se achar mais pobrezinho, o patinho feio. Eu já viajei muito com as obras do Masp. Pela experiência, sei que temos gabarito, conhecimento. Mas nem sempre há apoio para colocar em prática o que podemos. O Masp é privado. Nem se compara ao Museu do Louvre, claro que não. Mas eu procuro trabalhar mais com a conservação do que com a restauração. Sou uma só, não dá para ficar no ateliê só restaurando. No Louvre, o restaurador não pensa a embalagem, não controla a luz do ambiente, não conserva o acervo. É especialista. Pouquíssimas pessoas têm o conhecimento geral que temos aqui.

Por que falta apoio? É uma questão financeira?

Temos o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que é muito atencioso. Nenhuma obra viaja sem autorização do Iphan. Mas quanto ganha um profissional de lá? Quantas vezes pagaram cursos para ele se aperfeiçoar? Não há museu rico no mundo. Todos têm dificuldades.

Fonte: Jornal O Globo

Entrevista: Julia Cople

FOTO: Ana Branco

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