Nasci em 1906 – e pelas circunstâncias de minha vida – tenho a impressão de que não pertenço especificamente a nenhuma geração. Desde a minha adolescência, as mais variadas contingências me atiraram fora de todo o contacto com os que eu poderia denominar “companheiros de geração”. Na hora em que a grande maioria dos meus colegas se preparava para entrar nas academias, penetrava eu no comércio, mercê de uma incapacidade absoluta de estudar o que os programas escolares exigiam. Não devo senão à minha incapacidade de adaptação a certos estudos, e aos excessos e alvoroços da minha imaginação, o não ter seguido uma carreira liberal, o não ter feito o que chamam aqui, tão impropriamente, um curso completo. Lembro-me sempre, com um invencível sentimento de melancolia, do esforço de minha mãe, prisioneira longos anos de uma doença que a levou em plena mocidade; lembro-me dela, procurando nas vésperas de alguns exames finais que prestei no “Pedro II”, salvar-me de naufrágios inevitáveis. Ainda como que a ouço, fazendo-me repetir as serras do Ceará, e os rios e os afluentes da região amazônica. Esforço inútil esse, pois no dia do exame, depois de ter falado bonito sobre geografia política, perdi-me por não saber dar com exatidão os limites do Brasil. As ciências matemáticas eram, outrossim, verdadeiros muros que fechavam a minha vida de estudante. Nunca me foi possível, no colégio, adquirir o menor conhecimento, além das quatro operações; quanto a raiz quadrada e raiz cúbica, sempre estiveram para mim no plano dos grandes mistérios. Foi essa minha incapacidade absoluta de caminhar nos estudos que me fez um homem do comércio. Quando os que conheci nos bancos ginasiais cursavam o primeiro ano das academias, eu praticava no comércio a varejo, sofrendo os rigores de uma tirania terrível. Na primeira casa de negócios em que trabalhei – tecidos finos e armarinho, entrávamos às sete horas e meia e saíamos quase às oito; o tempo restante era dispensado em jantar e dormir. À medida, porém, que os outros adolescentes iam avançando nos estudos, eu ia evoluindo um pouco na minha obscura carreira de empregado do comércio, pois deixara o varejo por uma casa importadora, onde entrava às oito e meia e saía às 18 horas e meia.

Contactos com minha geração, com os rapazes do meu meio, estudantes de escolas, etc, nada disso tive eu. Não conheci essa agitação escolar, essa fermentação; minha vida transcorria num meio áspero, de luta pela vida. Os rapazes de minha idade, que trabalhavam no comércio, eram na maioria portugueses e tinham vindo ao Brasil travar uma luta decisiva. A atmosfera era de economia de tempo e economia de tudo. Guardo de todo esse passado uma gratidão sem limites. Graças a ele, não me esterilizei nesse puro jogo literário que, de resto, exercia sobre mim uma grande atração. A vida fora do ambiente das letras, a vida desde a primeira mocidade no mundo áspero dos que são obrigados a ganhar o pão; a vida no meio dos que têm apenas quase na infância as preocupações do interesse imediato, essa vida tem um valor educacional incomparável. Aprendemos muita coisa, passamos a olhar a existência de maneira direta, na sua desabusada realidade. O tempo para as fugas e as distrações é quase nenhum.

No meu caso particular, foi o sentimento de que eu me perdera para sempre nesse mundo anônimo do empregado do comércio, que me deu uma certa crispação para reagir a favor do meu destino. Na verdade, porém, os acontecimentos são muito mais fortes do que a nossa vontade de lutar. Um grande acontecimento veio de repente e deu um novo rumo à minha vida. Aconteceu que me desempreguei. Não me foi possível suportar mais tempo certas humilhações. Um dia, fui-me embora da casa de fazendas por atacado em que trabalhava. E caí em plena literatura. Obrigado a ficar em casa longo tempo, incapaz de pedir um novo emprego, com todas as minhas modestíssimas ligações comerciais interrompidas, perdido dessa vez de todos os lados, voltei-me para as letras, certo de que as letras não poderiam constituir jamais uma carreira, ou mesmo uma eventualidade de ganhar dinheiro. Voltei-me para as letras, porque nelas eu me sentia na plenitude dos meus mais caros desejos. De minha mãe, herdei o gosto ou pelo menos a curiosidade pelos livros. Lembro-me que foi dela que pela primeira vez ouvi falar em Baudelaire e Dostoiewsky. Uma preguiçosa curiosidade me fizera ler, outrossim, em menino no colégio, e em casa, os livros de Eça de Queiroz, de Machado de Assis, de Camilo Castelo Branco e de outros muitos autores nacionais e portugueses. Por ter sido membro ativo de um Grêmio Literário – o Coelho Neto – me pusera em contacto com autores diversos e poetas que eu procurara conhecer e declamar nas nossas ingênuas tertúlias de outrora. Já homem feito, porém, e sem ter nada em que me ocupar, lembro-me de que me atirei à leitura de uma maneira desabafada, inquieta, febril. O fato de ter, em pequeno, permanecido algum tempo num colégio da Suíça, me familiarizava com a língua francesa. Essa modesta vantagem foi essencial na minha vida e formação. Por efeito de viagens e mudanças, os nossos livros, os livros de minha mãe, já então desaparecida, estavam guardados em malas. Essas malas foram revolvidas, visitadas continuamente. Em seguida, freqüentei bibliotecas públicas, tomei volumes emprestados, onde os podia encontrar. Esse tempo de “desempregado” foi um tempo fecundo para mim. Foi o tempo de maior leitura de minha vida. Romance, história, crítica, poesia, ao mesmo tempo e indistintamente tudo eu devorava.

Se alguém pode se considerar autodidata, se alguém aprendeu por si mesmo, seguindo o seu próprio gosto, o próprio acaso das suas inspirações, esse alguém sou eu. Como não conheci um “espírito de geração”, como não pertenci a uma mocidade com idéias mais ou menos comuns, não conheci também, nessas horas graves e indecisas, um Mestre, um guia, alguém que me traçasse um rumo.

A essa fase de leitura intensa e desordenada, correspondeu uma aproximação com alguns homens de letras e de jornal, que se reuniam no “Café Gaúcho”, na Rua Rodrigo Silva, bem em frente à Igreja de Nossa Senhora do Parto. Todas as noites ou quase, vinha eu de Copacabana para a cidade, a fim de tomar parte em conversas. Éramos uns dez ou quinze habitualmente. Lembro-me de que o poeta Murilo de Araújo era de todos o mais brilhante, e não raras vezes, com ele e outros – entre os quais um filho de Constâncio Alves, Atílio, já morto, e alguns outros, pintores, escultores e homens de letras obscuros então – fazíamos excursões noturnas, perfeitamente líricas e inocentes, e que duravam até depois da madrugada.

Datam desse tempo as minhas ligações com meio mundo e uma certa experiência de outros meios, bem diferentes do meio comercial.

Tendo, afinal, arranjado um pequeno emprego e um amigo, transportei-me para São Paulo, onde vivi uns três anos intensos e ricos de experiência. Lá conheci muita gente. Trabalhava sempre no comércio, mas, já então, com uma certa autonomia e procurava ler e escrever. Em São Paulo, vivi um momento estranho de fermentação, de intensidade espiritual e de dúvida. Conheci numa conferência qualquer, um jovem estudante sul-riograndense, que hoje milita na imprensa paulista, P.M., com quem acabei morando numa pensão à Rua Jaceguai, 17. Assisti, nessa hora, ao drama de uma conversão, P. de M., que depois se tornou durante um certo tempo um ativo agitador político; principiara a ler os teoristas marxistas e a crer neles com uma integral sinceridade. Por seu intermédio, conheci muitos outros jovens, que se preparavam para aceitar o apostolado comunista e dar a essa crença o que de melhor e mais forte possuíam.

Estávamos então na hora-raiz das mais graves coisas que aconteceram no Brasil. As primeiras revoluções militares jogavam o governo Bernardes, já no seu crepúsculo, numa política de extrema repressão. O espírito revolucionário ganhava os seus mais ardorosos adeptos. Luis Carlos Pestes calara o Brasil, numa viagem surpreendente. Vivíamos o prelúdio das muitas agitações de que parecemos, pelo menos nesta hora, ter escapado. O que os jornais livres da época chamavam de “espírito revolucionário”, esse mal-estar político indefinido, iniciava uma procura de substância e nitidez. Tal como no verso do soneto famoso de Camões, o sentimento revolucionário de então “como a matéria simples busca a forma”. A forma era o marxismo. Intelectuais e estudantes encontravam uma carreira revolucionária que a muitos inutilizou, e que constituiu para outros uma longa fase de sofrimento e martírio.

1926, 27 e 28 em São Paulo foram os anos que podemos chamar de decisivos. Lembro-me de como muitos dos homens, de jornal e de letras, disputavam aproximações com operários e, por fim, com o Partido Comunista de então.

Nesse meio, porém, por uma fatalidade de minha natureza, não sabia eu como mover-me, incapaz de participar desse sem dúvida generoso movimento de proletarização. Conhecendo a vida do pequeno comerciário, que era nesse momento um pouco a vida do próprio operário, conhecendo o meio do trabalho não apenas pelos livros, mas por uma participação direta, procurava eu outras coisas e sentia-me atraído por outras direções. Foi nessa época que me liguei com Plínio Salgado, de amizade. Lembro-me de que o conheci ainda com o Estrangeiro em original, e que ele me leu, na primeira vez em que o procurei, algumas páginas desse romance, que a despeito de muitas opiniões contrárias de intelectuais, teria uma ação tão grande em todo o Brasil. Plínio Salgado passou a constituir, desde logo para a minha vida, um centro de atração completamente diferente do outro em que eu vivia. Em lugar de internacionalizar o Brasil, em lugar de estabelecer a ditadura proletária, ele queria uma pátria nítida, um estado energético, uma unidade nacional. Vivíamos desde o dia em que nos encontramos, numa camaradagem completa, e nesse tempo, ainda distante da sua atividade integralista, me foi possível observar a natureza compreensível e a bondade inata de Plínio Salgado. Cassiano Ricardo, Menotti del Picchia e muitos outros enxergavam, com o próprio Plínio Salgado, um verde-amarelismo, a que não me foi possível também aderir. No meio de tanta brasilidade, punha-me eu a suspirar pelas aventuras no frio e na distância. Saturado de antas, de tapuias, de tacapes, punha-me a reagir, procurando na leitura de Ibsen, de Maeterlinck e de Strindberg, um mundo contrário a esse mundo neo-indianista, imaginoso e patriótico. Ao homem internacionalizado e mecanizado, ao homem dominado pela idéia revolucionária e pelo marxismo – ao homem medusado pela proletarização, buscava eu, é certo, opor o homem amoroso de sua terra, das suas tradições e das suas peculiaridades. Mas dentro em pouco, a angústia nacionalista me fazia, também, procurar outras faces humanas. E eu me voltei, então, para os que julgava as mais vivas encarnações do modernismo. Nesses modelos trepidantes e cheios de graça, também não me foi possível fixar a minha mobilíssima capacidade de admirar. Na chamada literatura “modernista” senti, dentro em pouco, o gosto do efêmero, do que se alimenta do momentâneo, do que é feito para desaparecer. Em tudo o que me cercava, sentia eu a ausência da cousa humana. Faltava-me alguma cousa, um caminho entre tantas cousas. Quando, mais tarde, no meu pobre primeiro livro de poesias deixei cair, distraidamente o verso:
“Sou como um navio perdido na névoa,
Uma âncora, Senhor!”
não estava senão dando forma a um instante de alarmante insegurança. Foi, nesse momento, que voltando para o Rio, Plínio Salgado me pediu que fosse portador de uma carta para Jackson de Figueiredo, a quem já descobrira como um ser à parte, um homem que se apresentava ao meu espírito com a virtude de levar a vida a sério. Lembro-me de que cheguei à Livraria Católica com a carta, e encontrei, se não me engano, de monóculo, José Lins do Rego, nessa época ensaísta de Recife e que me apresentou ao Jackson. Essa apresentação viria me aproximar de um homem que marcaria a minha vida, embora a sua influência só tenha se exercido em fazer-me atentar mais um pouco em mim mesmo, na minha natureza, e nas minhas responsabilidades espirituais. Hamilton Nogueira, que se tornaria um grande amigo meu e se declarava então discípulo de Jackson, testemunhou que eu nem sempre partilhei certos julgamentos dessa grande figura humana, que iria morrer tão tragicamente. No entanto, que tempo fecundo o que passei freqüentando-o, ouvindo-o, debatendo em passeios noturnos certos problemas do homem e seu destino! Quantos livros não li, indicados por Jackson, quanta gente não conheci através dele! E foi também a ele, Jackson, que devi a amizade de Alceu Amoroso Lima, de quem recebi uma carta certa vez – a propósito de um artigo meu, exatamente sobre Jackson – e com quem iniciei uma longa correspondência.

Os azares de minha vida tinham-me levado para a gerência de uma serraria em Nova Iguaçu e, de noite, à luz das lâmpadas, na minha mesa empoeirada, cercado pelo grande silêncio das serras adormecidas, lia eu as cartas de Tristão de Athayde, livros e revistas estrangeiras que ele me enviava. Foi aí, nessa Serraria, que minha poesia desabou sobre mim. Antes já perpetrara eu alguns versos e chagara mesmo a publicá-los em anônimas revistas, mas, não me passara jamais pela cabeça ser um poeta. No fundo do meu coração, eu sonhava com a vida política, com a glória política. Isto, porém, é uma história diferente…

Não pertenci a nenhuma geração definida, como disse a princípio. Fui adotado por homens mais velhos do que eu. E em seguida, passei a procurar nas gerações mais novas o lugar que me faltava, que não tivera, que não pudera ter. Depois de ter conhecido gente muito mais velha do que eu, passei a esperar, nos que chegavam, certos consolos indispensáveis a uma natureza habitada pela angústia, pela insatisfação de tudo; senti, no seu nascedouro, muita grande figura que está principiando a se revelar, mas não encontrei ainda a minha geração. Abandonei muitas cousas, a aurora do mundo clássico raiou para mim, mas ainda não encontrei meu “clã”, o meu partido e, já hoje no meio do caminho, ainda me conservo à espera da minha geração, da geração que me revelará a mim mesmo e que, se o passado não me deu, o futuro me dará certamente.