Michel Wasserman, professor e pesquisador: “Não se deve pensar que o Japão é o país ideal”.

Radicado no Japão, veio ao Rio para palestra sobre Paul Claudel, diplomata e dramaturgo francês que ajudou a introduzir a cultura ocidental naquele país.

“Nasci na França, e desde os anos 1980 vivo no Japão, onde fui diretor do Instituto Cultural Francês, em Kioto. Eu me dedico a estudar o período japonês da vida de Paul Claudel, fundador do instituto. Pesquiso a arte japonesa para compreender uma sociedade tão especial e tão diferente do Brasil, onde Claudel também viveu.”

Conte algo que não sei.

O teatro NÔ, a forma clássica do teatro japonês, tem um repertório de cerca de 250 peças. Desde o século XV não são escritas obras novas, e todas são representadas de forma idêntica até hoje. Isto é impensável na arte ocidental. E demonstra a preocupação do Japão com a tradição. No ano 2500, as pessoas assistirão a uma apresentação de NÔ montada rigorosamente da mesma forma. Deste ângulo, a preservação e reprodução da tradição pode parecer excesso de preocupação com o passado, mas também é um zelo com o futuro. É uma característica do Japão.

Num país que preserva muito a tradição, não há uma barreira maior para a arte, essencialmente a transgressora? Como isso se resolve?

É preciso diferenciar a arte tradicional da arte contemporânea no Japão. A tradicional é muito pouco pessoal. Os artistas tradicionais japoneses dominam extraordinariamente a técnica, não buscam a originalidade. Já a arte contemporânea é muito próxima da ocidental. Na parte musical, grandes solistas e maestros de hoje praticam e conhecem a música ocidental até mais que a tradição deles. E isso é reflexo da sociedade: o Japão tem uma dupla cultura.

Em que momento as duas culturas se cruzam?

Um exemplo banal: numa família japonesa, você tem talheres que permitem comer da maneira japonesa ou da maneira ocidental. É uma sociedade extremamente fechada em alguns códigos, mas que se ocidentalizou muito desde o século XIX. Acho que as pessoas mais cultas do Japão são as que dominam as duas culturas.

Aqui, no extremo oposto do globo, temos a impressão que o Japão, tão organizado, é a antítese do Brasil. É assim aos olhos de um europeu?

Talvez não haja civilizações com maneiras de viver tão diferentes. Vivi décadas no Japão, e passei agora três dias no Brasil. Estou emocionado com a gentileza e abertura das pessoas. No Japão, as pessoas são gentis, mas não compartilhamos tanto as coisas assim. Não se deve pensar que o Japão é um país ideal. As relações interpessoais são mais difíceis, as pessoas são menos abertas umas às outras.

Foi a pesquisa sobre Paul Claudel que levou o senhor ao Japão, e agora ao Brasil, onde ele viveu há 100 anos…

Claudel foi enviado como embaixador da França no Brasil, em 1917, durante a Primeira Guerra, e de início teve uma atitude estranha para a época: trouxe como seu principal auxiliar Darius Milhaud, um jovem compositor de 25 anos. Juntos, assistiram aqui no Rio a um espetáculo com o grande bailarino russo Nijinsky. Inspirados por tudo que viam no Rio, e pela música brasileira, Claudel e Milhaud compuseram o balé “O Homem e seu Desejo”, para ser protagonizado por Nijinsky. Porém, Nijinsky adoeceu, ficou louco, e o balé só foi montado depois, em Paris, com enorme sucesso.

E no Japão?

Lá, sua passagem foi mais transformadora. Claudel fundou a relação cultural entre França e Japão. Escreveu peças e balés montados por japoneses, ajudou a introduzir a música ocidental no país, algo que reverbera enormemente até hoje. Ele levou a cultura ocidental, e foi a pessoa que melhor traduziu, para a Europa, o Japão da época. Seus textos descrevendo o país e a sociedade japonesa durante seis anos da década de 1920 merecem ser pesquisados.

 

FONTE: O Globo

Entrevista a: Miguel Cabellero

FOTO: Fernando Lemos

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