Não haverá solução alguma, se mudarmos a estrutura social sem reformar e mudar a alma humana. E tudo o que desejou o Cristo foi mudar, reformar, esclarecer, iluminar, avivar a Caridade e o Amor no homem. Sem Ele não haverá nada de bom – e a pretexto de socorrer os necessitados e estabelecer o paraíso terrestre, cairemos todos no maior e mais longo cativeiro que a História registra até aqui.
Como alguns jovens que me vieram visitar me perguntassem qual a solução para tantos e tão angustiosos problemas que nos perseguem, respondi-lhes que outra salvação não encontrara eu, senão a da volta de Jesus Cristo. Não vejo, não descubro, não encontro outra saída para a humanidade senão a que nos ofereceu Aquele que se confessou Filho de Deus. Estou afastado das práticas religiosas, sou um marginal da Igreja Católica, difícil se me vai tornando, com o correr dos tempos, compreender e aceitar certas afirmações, certas interpretações, certos aspectos da ortodoxia, mas a noção da grandeza do Cristo aumenta e me invade, cada vez mais e todos os dias. Naturalmente, sei que o mundo de hoje é um mar de desespero; que a vida humana se tornou uma aventura sem sentido; que, à medida que os seres, escravizados há séculos e séculos perdem a inocência e verificam que estão nus e que não há outro mundo, o desejo de punir os que os exploraram é imperioso e irresistível. Sei que tudo que amamos – e gira em torno do homem, de seu prazer, de sua dignidade, de sua liberdade de amar, de pensar e de agir – está ameaçado de perto; sei que as tiranias e as opressões voltaram com multiplicado conteúdo de força destruidora; sei que a dificuldade de crer não é mais o tormento de alguns espíritos indagadores mas o quinhão de todos; de tudo isto sei e de muito mais ainda. Mas sei também que a volta, o redescobrimento, a recuperação do Cristo seria o resgate do homem moderno. A idéia de que é necessário recuperar o Cristo é uma idéia mais revolucionária, mais eficaz, mais difícil de projetar na ação prática, do que tudo o que se faz na China do pesadelo ou na Cuba de Fidel Castro. Mas é luta maior ainda, mais exaustiva, mais dura do que mutilar o homem – esse trabalho de reconstruí-lo, de fazê-lo reconquistar a Esperança natural. A Esperança foi o legado que recebemos, para atravessar o tempo e enfrentar esta inacreditável aventura terrestre. Se tivermos Esperança, estaremos salvos. Se nos faltar Esperança, cairemos para sempre, não nos será possível permanecer de pé.
Perdi eu próprio muitas esperanças; vi ruírem construções que se me afiguravam eternas; presenciei a ação do tempo tirar muitas máscaras e exibir as faces verdadeiras dos seres. O que é sempre terrível. Vi as coisas em que acreditava com maior ardência se transformarem em cinza, poeira e nada. E espíritos que alimentaram meu espírito, verifiquei que perdiam o poder de dizer-me fosse o que fosse. Vi a fraqueza de estruturas morais que me pareciam as mais firmes. Colhi desencantos; dei-me eu próprio para muitos desencantos alheios. O mundo que recebi ao tomar consciência das coisas perdeu-se, desfigurou-se, é uma outra coisa. Seres que me foram essenciais – sem os quais não podia eu viver – passaram a ser-me indiferentes, o que é pior do que tê-los como hostis.
Tudo o que fui conheceu mudança. Mas o Cristo não. O Cristo – que representou para a minha infância um pequeno fantasma, para minha mocidade um símbolo – nesta hora de sombra em que vivo tornou-se uma presença. Sua palavra, eu a procuro como solução de dificuldades, como chave dos maiores enigmas. Sei que toda a crise do mundo resultou da deformação de Sua doutrina, do esquecimento do que Ele propõe como regra de conduta dos homens. Não vejo nenhuma possibilidade de qualquer salvação para o Ocidente sem o Cristo autêntico. Porque estou falando no Cristo autêntico e não n´Aquele que nos oferecem quase vinte séculos de deformações, de falsificações, de devoções, de fantasias.
Não creio em nenhuma forma de paraíso terrestre sem o Cristo… Sei que é importante que as fomes de tantos milhões de homens sejam saciadas, as doenças curadas e os corpos expostos ao frio aquecidos, que haja um mínimo de conforto para todos os homens. Mas não desconheço que não pode haver qualquer felicidade ou plenitude do homem, com a simples fundação de uma sociedade de consumidores e produtores. A própria condição humana reclama a Esperança. Uma humanidade sem Esperança é algo terrível. Se o Cristo não sobreviver, a raça humana será uma coisa irreconhecível. Poderão fartar-se, os grandes rebanhos, de seres frutos da inseminação artificial, todos com saúde perfeita. Mas não haverá mais este abismo que é o homem, com as surpresas boas e más que ele nos oferece.
O Cristo é a chave do mundo moderno, é o fim do egoísmo e o advento da tão esperada justiça social. Neguem os que não têm forças para crer na Sua divindade, mas os poucos que contemplam o Cristo despido de falsas roupagens, os raros que O encontram tal como é, os que ouvem Sua voz, estes sabem que tudo o que vem d´Ele está certo, é a verdade, é o equilíbrio, é a medida do humano. Não há outro movimento a fazer senão responder com o Cristo, não só à heresia do nosso tempo como aos que se intitulam cristãos sem o serem, aos que O exibem como recurso defensivo e não sabem quem Ele é.