Nessa altura da minha juventude, tinha um grande amigo, o Luiz Paulo Abreu Nogueira, falecido muito prematuramente. Era filho do Hamilton Nogueira, que era senador em consequência, creio eu, de uma era muito inocente da vida política brasileira. Ele era médico e professor de Medicina Legal na Faculdade de Direito e foi um herói moral dos jovens daquela época. Tinha um grande prestígio baseado na sua seriedade, no seu valor intelectual.

Era um tipo de pessoa que hoje não seria eleita nem para gari: porque não tinha dinheiro, não tinha base popular, mas impunha grande respeito. O último a se eleger nessas bases talvez tenha sido o Afonso Arinos de Melo Franco: sem sair de casa, sem pedir um voto, chegou ao Senado na década de 80.

Pois bem: o Luiz Paulo Nogueira era um homem interessantíssimo, cheio de vida, atleta do Fluminense, onde praticava natação e salto, grande namorador também, enfim, um personagem. Foi ele quem me introduziu nas escolas de samba, sobre o que falarei mais tarde. E, por alguma razão, o Luiz Paulo Nogueira conhecia o Augusto Frederico Schmidt.

E eu também acabei, por seu intermédio, conhecendo este personagem fascinante, um dos principais artífices da candidatura JK. Acompanhei muito de perto a montagem da candidatura do Juscelino e pude testemunhar a importância desse homem na articulação de forças poderosas que deram sustentação e elegeram o mineiro que prometia 50 anos em cinco para o desenvolvimento do Brasil. Schmidt encantava JK e todos nós, por sua mistura curiosa de empresário-poeta-editor.

Casado com Yedda Ovalle, sobrinha do poeta Jaime Ovalle, Schmidt foi um grande empresário: primeiro na Orquima, como sócio de Kurt Weill, imigrante judeu austríaco, homem muito elegante, muito fino, muito sofisticado. A Orquima era a empresa das areias monazíticas e areias monazíticas entram na fabricação da bomba atômica. Eles exportavam a matéria-prima para os Estados Unidos, o que deu chance para que fossem atacados por todos os lados e classificados como entreguistas – no caso, para entregar o Brasil aos Estados Unidos.

Pouco mais tarde, Schmidt também apoiou e viabilizou a criação do Disco, a primeira cadeira de supermercados feita no Brasil por Franzio Salles, genro de Vicente Galliez, um dos homens mais influentes da época, tanto no mundo empresarial, como no social e no político. Galliez, nessa época, era presidente da Sociedade dos Seguradores e foi durante muitos anos presidente do Country Club. E. Galliez era tudo isso, penso, também através de sua ligação com o Schmidt, que cobria todas essas áreas e mais a imprensa, e a quem atribuo, por todas essas ligações, a contribuição fundamental para a implantação da candidatura do Juscelino. Na minha opinião, ela não teria acontecido se não fosse o Schmidt. O Juscelino estava em Minas, toda essa articulação ficava extremamente complicada à distância, e o candidato, no fundo, não tinha nem o conhecimento, nem a vivência desse mundo onde se fabricava o poder no Brasil.

O que tenho certeza é que ele teve uma influência enorme nesse período, inclusive sobre empresários do porte de Paulo Bittencourt e Roberto Marinho, aos quais “doutrinou”, no sentido de provocar neles uma visão mais internacionalista do Brasil. E essa visão compartilhada foi a grande afinidade que ele teve com Assis Chateaubriand: ambos defendiam a necessidade de eliminar as barreiras nacionalistas e protecionistas nas quais se desenvolvia a política brasileira.

O outro grande artífice da candidatura JK foi Francisco Negrão de Lima, que cuidou de angariar todos os apoios possíveis na área política, além de angariar os fundos necessários para a campanha.

Francisco Negrão de Lima, mineiro, foi um dos mais competentes e honestos políticos profissionais da história contemporânea do Brasil. Deputado, ministro da justiça e das Relações Exteriores, prefeito e governador do Rio de Janeiro, onde concebeu o plano de obras completado por Carlos Lacerda, e embaixador em Portugal. Casado com D. Ema, era um homem sedutor, que atraía as mulheres, e teve um duradouro romance com a empresária portuguesa Fernanda Pires da Silva.

Negrão e Schmidt, entretanto, ainda iriam sofrer um bocado a até ver seu candidato no Catete.

Ao pressentir que JK sairia virtuoso das eleições de 3 de outubro de 1955, Carlos Lacerda articulou um golpe. Com todo aquele destemor que lhe era característico, sugeria a instalação de um governo provisório militar e dissolução do Legislativo. Além disso, açulava a UDN que tentava provar fraudes no processo sucessório.

Para agravar o quadro, o já presidente Café Filho, vice de Getúlio que assumira depois do suicídio, é internado com dores no peito (uma história suspeitíssima, já que diziam que Café conspirara com Lacerda), em novembro de 1955, e deixa vaga a presidência. O laço se aperta. O general Lott, ministro da Guerra de Café Filho, compra a briga ao se ofender com um discurso golpista do coronel Bizarria Mamede no funeral do general Canrobert Pereira da Costa, ex-ministro da Guerra de Getúlio. Bizarria discursa contra “a mentira democrática” e chama a vitória nas urnas de “golpe da minoria”.

Lott quer a prisão do coronel e antes já pedira a prisão de dois generais. O deputado Carlos Luz, interino na presidência, não aceita o pedido do general, que renuncia ao ministério. O general Odylo Denys toma as dores do ministro e da “instituição militar desrespeitada”. Resiste. Dia 11 de novembro, 25 mil soldados e tanques estão nas ruas do Rio em defesa de Lott e o tom do movimento, para surpresa civil, é garantir a posso dos eleitos Juscelino Kubitschek e Jango Goulart. O presidente interino, Calos Luz, foge no cruzador Tamandaré e tem seu impeachment decretado. Nereu Ramos, que era do PSD de Santa Catarina e presidente do Senado, toma posse. Dias depois, Café Filho recupera-se e quer de volta a presidência. Lott intervém na marra, nega a volta milagrosa e impõe a Nereu também o impeachment de Café Filho. Com o país em estado de sítio, Juscelino Kubitschek de Oliveira toma posse, com João Goulart como vice presidente. Na época se votava no presidente e no vice.

Tenho com o Jango uma história interessante. Pouco tempo depois da eleição do Getúlio, em 1950, estava no Sacha´s quando o Pires do Rio, um gaúcho ligado aos Vargas e figura da noite, me disse que uma pessoa muito importante queria comprar um apartamento no edifício Chopin, o famoso prédio ao lado do Copacabana Palace que o meu pai estava construindo. Disse que eu fosse ao Palácio do Catete mostrar as plantas ao Dr. João Goulart: “Quem é”, perguntei. “È o homem de confiança do chefe”. Quando cheguei ao Catete havia dezenas de pessoas esperando para falar com o Jango, principalmente gente de sindicatos, denominados “pelegos” na época. Esperei durante 3 horas, cansei, fui embora e no dia seguinte mandei um vendedor nosso, o Nelson Otero, com ordem para esperar o que fosse preciso. Quando foi recebido, o Nelson vendeu o apartamento ao Jango, que nele morou muitos anos com a bela Tereza e os filhos. Nelson tornou-se um homem de confiança de Jango. Foi presidente de um Instituto de Previdência quando Jango foi presidente da República, depois d renúncia de Jânio Quadros, e sofreu as agruras do amigo na revolução de 1964, morrendo prematuramente. Era filho de um galego dono de quitanda e um leal amigo.

Augusto Frederico Schmidt escreveu a maior parte dos discursos do presidente Juscelino, principalmente os da área internacional. Em 1957 e 58, foi chefe da Delegação do Brasil na Assembleia Geral da ONU, e eu fui acompanhando a comitiva como um assistente dele – informal. Não fazia parte do grupo oficial, formado principalmente por diplomatas. Esses diplomatas eram conhecidos como “a fábrica” ou o grupo da diplomacia paralela: Sette Câmara, Mozart Gurgel Valente, Celso Souza e Silva, João Paulo do Rio Branco, Araújo Castro, Alfredo Valladão – todos, nos anos que viriam mais tarde, brilhantes embaixadores.

Pois nesta viagem também tive a minha participação. Em maio de 58, em visita oficial a Caracas, Venezuela (o Brasil não estava incluído na rota), O então vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon fora vaiado e apedrejado por uma turma barulhenta de estudantes universitários. Cancelou a viagem imediatamente e voltou a Washington, onde foi recebido como também barulhenta recepção de desagravo.

A partir daí, tivemos a ideia de que o Juscelino deveria chamar a atenção do presidente Eisenhower para a negligência que os Estados Unidos em relação à América Latina e os problemas que certamente iriam ter se não mudassem a sua política. Fizemos uma carta, à qual Eisenhower respondeu, com aquelas atitudes tão comuns a qualquer troca de correspondência com países subdesenvolvidos: “Sim, realmente fico contente em verificar que os valores da democracia e da liberdade”etc, etc. Uma coisa, assim, bem água com açúcar. Ecos que temos agora, novamente, vindos da mesma fonte.

Tenho orgulho de ter contribuído com uma frase que foi incluída numa segunda carta: “A democracia e a liberdade valem pouco para quem os problemas são a fome, a miséria e a doença”.

Esse ir e vir de cartas deu origem à Operação Pan-Americana e à criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Schmidt conseguiu uma coisa inédita: a unidade latino-americana face aos Estados Unidos. Conseguiu também obrigar os Estados Unidos a negociar com a América Latina em bloco, e não bilateralmente, jogando países contra países, como tinha sido a tradição até aquele momento.

O Schmidt, que era visto no Brasil como entreguista, passou a ser odiado pelos americanos. Não ostensivamente, é claro, mas o ódio estava lá. E ele aqui, sempre articulando, reuniu alguns líderes latino-americanos importantes e fez uma aproximação com a Argentina, com a qual o Brasil nunca havia atuado conjuntamente. O presidente da Argentina era o Arturo Frondizi, um desenvolvimentista como JK, respeitador dos direitos humanos, um democrata, que também sonhava com o apoio dos Estados Unidos par as metas de desenvolvimento do continente.

O grande aliado do Schmidt foi Carlos Muniz, chanceler argentino que tinha sido embaixador no Rio e tinha, como segundo, Oscar Camillion, que foi embaixador em Brasília e mais tarde, também chanceler.

Pouco antes da inauguração de Brasília e da saída de JK do governo, o Leão Gondim de Oliveira, diretor de O Cruzeiro e primo do Chateaubriand, promoveu um grande jantar em homenagem ao presidente, na sede da revista – um projeto do Oscar Niemeyer, na Rua do Livramento. As centenas de pessoas presente esperavam que Juscelino fizesse um discurso informal, um tanto sentimental. Mas ele fez um discurso de campanha, já de olho na reeleição em 1965. Falou no programa de metas, quantos quilômetros de estradas quantos automóveis… Ainda nem acabou o governo e já está em campanha… Se fosse hoje, vá lá, mas daqui a cinco anos…

Aconteceu o que eu temia, a história foi muito mais triste do que poderia imaginar, mas isso já não faz parte deste livro.

A Operação Pan-Americana foi uma aventura extraordinária, muito interessante, e produto basicamente da criatividade de dois homens: Augusto Frederico Schmidt e Juscelino Kubitschek.

Augusto Frederico Schmidt foi um grande poeta. Tive o privilégio de ser o primeiro a ler o manuscrito do seu poema épico “Declaração Pan-Americana”, escrito por ele no seu quarto do Hotel Plaza em Nova York, quando da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Schmidt não gostava de sair à noite, nem de dormir tarde. No entanto, em Nova York abriu uma exceção para oferecer um jantar ao conde Francisco Matarazzo e sua mulher D. Mariângela, dono e patrão do que era ainda naquela altura o maior conglomerado industrial brasileiro.

O conde Chiquinho, como era conhecido, tinha uma imagem pública severa e um aspecto físico imponente. Dizia-se que os seus executivos, todos italianos, saiam de seu imenso gabinete no edifício Matarazzo em São Paulo andando para trás, sem dar as costas ao chefe. No entendo, em circula privado, era um homem com grande sentido de humor e até sabia rir de si próprio.

O Schmidt me disse:

-“Quero levar o conde Chiquinho a um restaurante diferente, não aqueles lugar habituais como o Le Pavillion”.

Havia sido aberto há pouco tempo um restaurante italiano, Orsini´s, que estava na moda entre o jovem jet-set de Nova York e andava repleto de lindas modelos e seus admiradores. Conhecia o seu dono desde que ele havia aberto um pequeno café, que foi o primeiro em Nova York a servir café expresso. Fui lá na véspera e disse que ia trazer o chefe da delegação brasileira nas Nações Unidas e o famoso conde Matarazzo no dia seguinte.

Quando chegamos ao restaurante, Orsini, que era um italiano de bela figura, precipita-se e diz:

– “Signore Conte, che honore!”

E o conde Chiquinho me cutuca e diz, com o seu sotaque italiano:

– Veja, André, não há nenhum italiano no mundo que não me reconheça.

Outra história que tive com o Schmidt, deu-se no apartamento dele, em Copacabana. Um dia, lá chegando, fiquei intrigado: sentado numa poltrona, ele falava e repetia um nome – Álvaro Americano de Oliveira e Sousa.

Curioso, perguntei:

– Por que está dizendo este nome?

– Porque este rapaz me apareceu aqui, veio de Buenos Aires…

Tinha conhecido o Álvaro Americano na época em que militávamos na política estudantil, em 1950, quando fui cobrir o assunto para o Diário Carioca, como já contei aqui. Álvaro era o presidente do DCE (Diretório Central dos Estudantes) e era também um grande articulador.

Durante algum tempo, tinha vivido em Buenos Aires, como diretor do Centro de Estudos Brasileiros. Voltou para o Rio e estava à cata de um emprego. Ainda não me tinha encontrado com ele, quando o Schmidt o mencionou e, no dia seguinte, estava com o prefeito Negrão de Lima no Palácio da Guanabara, quando ele me perguntou:

– Você não conhece alguém que possa me ajudar a redigir as mensagens para a Assembleia?

– Olha, por acaso, conheço a pessoa ideal. O Álvaro Americano.

Pus os dois em contato, Álvaro entrou ali e acabou tomando conta. Foi chefe de gabinete, secretário de Administração, fez uma carreira brilhante! Mais tarde foi para O Globo, onde criou a coluna Carlos Swann, um sucesso que durou muitos anos.

Texto do livro “O Rio que passou na minha vida”, páginas 43 até 51.