O Quinze, em sua 104ª edição, em 2016, foi o primeiro livro da escritora Rachel de Queiroz, lançado em 1930 e custeado então pelo seu pai. A obra foi elogiada por ninguém menos que Mário de Andrade, além de Augusto Frederico Schmidt, entre tantos outros. Em 1948, foi publicado, num só volume, O Quinze, junto com os romances João Miguel e Caminho de pedras. Em 1960, sai a edição de Quatro romances ( O Quinze, João Miguel, Caminho de pedras e As três Marias). Em 1978, O Quinze é publicado e lançado no Japão pela editora Shinsekaisha e na Alemanha lançado pela editora Suhrkamp.

No lançamento, em 1930, o livro foi aclamado pela crítica, tornando-se um clássico, nunca imaginado pela jovem escritora. No Rio de Janeiro, o poeta e editor carioca, Augusto Frederico Schmidt, não precisou passar da página dez para formar sua opinião. Segundo ele, a obra era bem brasileira, retratando tão bem a seca no sertão cearense e a vida do homem sertanejo na belíssima narrativa da escritora.

(Consulta ao prefácio e a cronologia de Elvia Bezerra, no livro O Quinze)

 

Para Augusto Frederico Schmidt “O Quinze” era mais do que um livro sobre a seca nordestina. Para o poeta, a escritora retratou com muita emoção, simplicidade, força e vivência a alma sofrida do sertanejo. O romance da jovem Rachel de Queiroz, então com 19 anos, o deixou tão encantado quanto surpreso. Apesar de ainda menina, o ambiente desértico do nordeste brasileiro fez aflorar sua sensibilidade, demonstrando uma promissora vida literária.

(nota da redação da Fundação)

FORTUNA CRÍTICA

Uma revelação: O Quinze

Augusto Frederico Schmidt

Acabo, agora mesmo, de ler um romance e não resisto à tentação de sobre ele dizer algo, de comunicar o entusiasmo de quem estou possuído,de chamar a atenção para um livro que vem revelar a existência de um grande escritor brasileiro, inteiramente desconhecido. Grande escritor que é uma mulher, incrivelmente jovem. Refiro-me ao O Quinze, de Rachel de Queiroz.

A primeira e única pessoa que me falou nesse livro, até agora, foi Gastão Cruls, espírito admirável, sempre atento a tudo o que acontece no Brasil, procurando descobrir as menores manifestações dessa nossa tão apagada, tão bruxuleante vida literária, onde tudo é longamente parado, duma imobilidade quase desoladora.

As rápidas palavras de Cruls não me tinham, porém, dado uma ideia precisa da importância do livro, e foi ainda hesitante que o adquiri numa livraria.

Aos poucos, porém, depois de ter lido uma advertência ou prefácio, onde a Autora nos confessa que o seu livro foi escrito aos dezenove anos, aos poucos, lidas as dez primeiras páginas, tive a noção de todo o valor da obra.

É mais um livro sobre a seca. Dona Rachel de Queiroz descreveu alguns aspectos da vida no interior cearense (de onde o livro nos vem) durante um dos períodos mais dramáticos que o Ceará atravessou, devastado por um sol impiedoso, sem termo.

Não é o primeiro livro, decerto, que trata do assunto; existe quase uma literatura inteira sobre este flagelo brasileiro, porém em nenhum outro encontrei, nem nos bem mais ricos de ocorrências dramáticas como os de Rodolfo Teófilo, nem mesmo nos capítulos dos retirantes de A bagaceira, de José Américo de Almeida, que tem, aliás, muitos outros aspectos, em nenhum livro encontrei tanta emoção, tão pungente e amarga tristeza.

Não será uma obra perfeita. Faltará ao O Quinze algumacoisa mais para que se o possa chamar precisamente de romance – mas que simplicidade, que sentido perfeito da realidade, que ausência de má literatura, que força direta de contar e de escrever!

Nada há no livro de dona Rachel de Queiroz que lembre, nem de longe, o pernosticismo, a futilidade, a falsidade da nossa literatura feminina. É o livro de uma criatura simples, grave e forte, para quem a vida existe.

É que não tem apenas a compreensão exterior da vida. Livro que surpreende pela experiência, pelo repouso, pelo domínio da emoção – e isto a tal ponto que estive inclinado a supor que dona Rachel de Queiroz fosse apenas um nome escondendo outro nome.

Tudo se passa, em O Quinze, dentro de um ambiente de absoluta realidade, tudo acontece com a mais perfeita naturalidade, naturalidade que é mantida em todo o livro sem nenhuma queda.

Livro brasileiro, profundamente brasileiro! Que felicidade o se poder chamar um livro nosso de brasileiro, porque a preocupação brasileira que seguiu o nosso movimento modernista quase que retirou dessa circunstância toda a excelência, tornando-a até uma coisa artificial, à força de intencionalidade.

Livro verdadeiramente brasileiro, livro corrente e claro, livro que consegue manter a forma no mesmo diapasão com o assunto, na mesma simplicidade que os liga admiravelmente.

Não se encontra no pequeno romance que dona Rachel de Queiroz acaba de publicar o mínimo abuso. A própria paisagem de seca, cujo horror podia dar motivo para maior expansão descritiva, a própria paisagem vem apenas necessariamente, em rápidos e sóbrios painéis, tão rápidos e sóbrios, tão ligados com a vida dos personagens, com a vida do livro, que seria impossível se destacar um trechozinho qualquer para antologia. Como estamos longe dessa literatura gênero viagem maravilhosa, dessa literatura exaltada e sem entusiasmo, dessa literatura modernista em que a complicação pretende esconder a mediocridade irremediável da alma.

Não há nenhum sentimentalismo na escritora de O Quinze. Constata ela apenas a realidade, sem procurar concluir coisa nenhuma, de uma singela frescura que não pode deixar de comover ao leitor. Não reclama nenhuma providência contra a seca, pois seu livro nada tem de caráter panfletário. Não amaldiçoa a terra, não força sentimento de piedade com invectivas violentas, nem com lamentações pungentes.

Algumas cenas se recortam, ao vivo, na tragédia infinita das terras calcinadas, das terras abandonadas.

O retirante é como uma árvore da estrada estorricada. Por mais que se descreva a epopeia do homem expulso pela própria terra, terra madrasta, ainda e sempre há coisa nova a se dizer. Sem pensar talvez, levada apenas pelo desenrolar da história que nos conta, seguindo uma família de retirantes na sua caminhada, na sua via-crúcis sem redenção, dona Rachel de Queiroz fere de novo um grave problema nacional.

Há pouco, ainda, o Sr.Oliveira Viana insistia, no seu livro Problemas de política objetiva, sobre a necessidade de se pensar definitivamente essa chaga terrível, que existe sempre, porque pode chegar de um momento para outro. Já o livro do Sr. José Américo de Almeida, que teve um eco tão profundo na alma nacional, recordou também que a seca existia, mas não era A bagaceira, ainda, o livro da seca. Outros problemas o agitavam, o descontentamento diante de outras realidades humanas, a própria vida amorosa dos heróis distraía o leitor do flagelo. E quem lê mais os outros livros sobre o assunto?

Dona Rachel de Queiroz veio falar de novo. É mais uma voz – e tão singularmente forte na sua delicadeza – que vem lembrar aos outros brasileiros que a seca pode chegar de um momento para o outro.

O que me seduziu, porém, mais do que o papel político e nacional que a obra adquiriu sem querer, o que mais me encantou foi o que há de literário nela. A linguagem fresca e corrente, onde não se nota o mínimo exagero de caboclismo, linguagem otimamente resolvida que não fere aos ouvidos, que não irrita, como acontece nos livros regionais, em que há sempre um tom de falsidade e de coisa estudada.

Há pouco tempo, ainda, lia eu um outro livro feminino, que conseguiu grande sucesso na França, o David Golder, de Irène Nemirovsky, e pensava na importância real que a mulher está tomando agora na literatura. Uma Katherine Mansfield, uma Virginia Woolf, uma Rosemond Lehmann, são autores de primeiro plano nas letras contemporâneas.

Dentro da nossa limitadíssima produção feminina, não me lembro de nada que seja revelador de tanta possibilidade como esse romance escrito por uma mocinha – não obstante algumas informações, que venho de obter, há em meu espírito ainda alguma dúvida sobre a autenticidade desses dezenove anos tão singularmente graves e compreensivos – , uma mocinha que veio, pelo menos, dar aos escritores nossos de hoje, e são raros os que não necessitam, uma lição de simplicidade.

A não ser a Vida ociosa, desse tão esquecido e tão forte Godofredo Rangel, O Quinze é mesmo o que temos de melhor no gênero. Pode não ter a força descritiva dessa literatura que produziu Os caboclos de Valdomiro Silveira – mas é seguramente um dos nossos livros mais naturais, mais perto da verdade. Nem um tipo impossível nele se encontra. Todas as personagens vivem realmente, movem-se numa meia-luz de verdade.

Um amor irrealizado – que a gente não chega mesmo a saber se é amor – envolve todo o ambiente.

Vê-se bem que a autora ficou dentro da sua experiência – contentou-se com o que podia fazer -, não foi além das suas possibilidades psicológicas e por isso foi feliz.