2018 05 03 O RIO DO SAMBA. RESISTÊNCIA E REINVENÇÃO

 

Rio do samba: resistência e reinvenção é o resultado daquele encontro inesperado: uma grande exposição, contendo um total de 800 peças entre pinturas, fotografias, filmes e documentos, além de 5 instalações.

“O samba constitui um elemento estrutural da identidade cultural brasileira”, explica Salles, um dos 4 curadores da mostra, com Nei Lopes, Clarissa Diniz e Marcelo Campos. “De um ponto de vista social e cultural mais amplo, o samba aponta a uma resistência histórica frente ao escravismo, à colonização e às tentativas de supremacia cultural branca que nega esse papel estruturante das culturas negras e índias na formação do Brasil”.

A exposição, com a qual o MAR comemora seus 5 anos de existência, dá atenção especial às relações entre o samba e as artes visuais, a partir do movimento modernista: “A exposição revela como toda essa cultura africana que resistia de forma marginal e submetida foi tomando espaço até configurar-se como uma expressão da identidade nacional na obra de Di Cavalcanti, Portinari, Djanira… e até Hélio Oiticica, no que ele chamou de “parangolés”, ou, mais contemporaneamente, Ernesto Neto, criador de uma instalação interativa que terá lugar de destaque na Sala de Encontro, junto com o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira”.

Em destaque na porta de acesso à exposição, uma frase sintetiza o espírito da mesma: “O samba é o dono do corpo”. “A questão do corpo nessa cultura é fundamental enquanto um instrumento de relação com o divino”, frisa Evandro Salles. “O samba toma o corpo e traz o sujeito a essa relação cósmica com as forças do universo, pode-se dizer que teatraliza sua presença no mundo… acho que o que faz o samba uma coisa especial é justamente essa relação metafísica e física do sujeito com o universo”.

O período proposto pela exposição O Rio do samba se divide em 3 momentos. No primeiro, Da herança africana ao Rio negro, é abordada a chegada do escravo à Pequena África carioca, cenário privilegiado das primeiras reuniões de afrodescendentes, conhecidas inicialmente com o nome de “sembas”. “Quando os negros africanos de origens diversas se encontravam, cantavam para tentar sobreviver à dura vida que levavam”, explica o também curador Marcelo Campos. “Ainda que ele seja muito vinculado a uma condição de alegria, o samba vem como essa tentativa de curar essa ferida, e sempre foi acompanhado por essa marca e essa relação que ele tem com as comunidades e resistiu nos lugares mais pobres, nos morros, nas favelas…”.

O período da exposição acompanha a viagem do sambista desde a pós-escravidão e a marginalização no exílio periférico e sua volta à vida pública, com os primeiros carnavais. “O que era uma manifestação que ocorria no fundo do quintal, de noite, transforma-se em uma outra coisa no momento da expansão urbana do Rio de Janeiro”, diz Salles. “A própria história das escolas de samba está ligada a essas expansões que levaram o samba aos subúrbios, primeiro, e às grandes avenidas, depois. É assim que o samba vai se adaptando e se reinventando a cada momento histórico…”.

O núcleo Da Praça XI às zonas de contato finaliza com o samba transformado em espetáculo radiofônico e teatral. Na opinião de Marcelo Campos, “o samba não morreu porque os sambistas souberam negociar com as forças conservadoras para sobreviver. Por exemplo, quem vai apresentar o samba na rádio e nos teatros em um primeiro momento não foram sambistas, mas cantores brancos, era Carmen Miranda… ocorreu uma estilização do samba até que os sambistas recuperaram o controle. Mas isso é a história do samba, o tempo todo ele vem resistindo, se reinventando, por conta disso, e por isso ele sobreviveu”.

Em O Rio do samba é possível observar uma coleção de joias que pertenceram a Carmen Miranda junto com um amplo mostruário de fantasias carnavalescas. “Uma de nossas dificuldades na curadoria foi justamente mostrar essa separação: escola de samba é uma coisa, samba é outra”, esclarece Marcelo Campos. “As escolas de samba estão presentes na história do samba, mas outras coisas também estão presentes e não estão nas escolas de samba”.

A exposição termina com o retorno das rodas de samba aos quintais, o renascimento do bairro da Lapa e o surgimento de novos atores como Teresa Cristina e o grupo Galocantô. “Hoje temos mais de 200 rodas de samba espalhadas por todos os lugares, com músicos que vivem dessas apresentações, com novos compositores, e não tem fim…”, conclui Campos. “Existe até quem acredite que o compasso do funk vem do compasso binário do samba e se reproduz na batida do funk…”

 

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Serviço:

Local: Museu de Arte do Rio

Praça Mauá, 05, Centro. CEP 20081-240 – Rio de Janeiro/RJ

Período da exposição: Começou em 28 de abril e vai até março de 2019

Horário: Terças a domingos (exceto segundas), das 12h às19h.

Contato: T: (21) 3031-2741

Entrada: Até 28 de maio, a entrada é gratuita. Depois, custará R$ 20