Livro da historiadora Heloísa Starling investiga raízes do ideário republicano no Brasil, revela detalhes de revoltas populares no período colonial e sugere caminhos para a realização plena de um governo que de fato zele pelo bem comum

 

Durante todos os anos mil e setecentos sonhou-se no Brasil com alguma ideia de república. Por ela gritou-se em Olinda em 1710. Por ela conspirou-se em Minas, no Rio, na Bahia. As ideias andaram pelo Brasil, indiferentes à violência da repressão portuguesa. As conjurações desenharam bandeiras, traficaram livros, espalharam panfletos. Livros foram traduzidos e copiados a mão para contornar a censura. De onde vinham as ideias de uma república no Brasil? Do mundo inteiro. De Veneza, das 13 colônias independentes no norte da América, da França. Os rebeldes reuniam-se no escuro da noite em fazendas, em clubes literários, em boticas. Eles foram enforcados, esquartejados, degredados, mas as ideias insistiam em se espalhar pelo país.

É essa história, da qual pouco se sabe, que está em “Ser republicano no Brasil Colônia”, de Heloisa Starling. O veio central do ensaio histórico é a instigante tese de que o sentido mais profundo da República esteve entre nós desde o começo. Estava em Palmares, antes ainda do século XVIII. A busca do autogoverno constituído por homens livres e iguais era parte do projeto de várias rebeliões contra a Coroa portuguesa. A palavra república estava na boca de libertários, como sonho, e nos autos de devassa, como prova do “crime”.

“Não posso mover meus passos por esse atroz labirinto”, escreve Cecília Meireles na belíssima abertura do seu “Romanceiro da Inconfidência”. A história brasileira é labiríntica, mas Heloisa vai guiando os passos do leitor e mostrando os sinais do republicanismo antes da República. A caminhada revela que certos erros nos seguem há mais tempo do que pensamos.

“Nenhum homem nesta terra é repúblico ou trata do bem comum, senão cada um do seu bem particular”, escreveu frei Vicente de Salvador, em 1627. Depois veio Padre Antônio Vieira apontar o dedo para a chaga que ainda temos. “Perde-se o Brasil, senhor, porque alguns ministros de sua majestade não vêm cá buscar nosso bem, vêm cá buscar nossos bens (…) Esse tomar o alheio é a origem da doença”.

O sentimento de ser expropriado por um poder insensível está na origem das revoltas que se espalharam pelo Brasil. Mesmo depois de ter visto Tiradentes caminhando no centro da cidade em direção ao “excessivo cadafalso”, o Rio ignorou o risco e fez a sua conjuração em 1794. Mesmo com a notícia da repressão implacável no Rio, a Bahia iniciou a sua rebeldia com um gesto espetacular: no começo de 1798, a forca, no pelourinho, amanheceu queimada. Desafiada estava a ordem colonial.

PARA REACENDER A CHAMA

O século seguinte começa com mais insurreição. Pernambuco em 1817 proclama a sua república. Foi derrotado, mas voltou mais forte, querendo a Confederação do Equador. E já às vésperas da República, o povo mostrou que queria muito mais do que lhe seria oferecido. Clubes de “homens de cor” lançaram jornais e movimentos para “abolir os privilégios de casta e de raça”.

Quando afinal é proclamada, a República está sem as virtudes que havia nos sonhos dos rebelados. Chega distante do povo. Esse é o mistério sobre o qual Heloisa Starling se debruça: a perda do sentido mais profundo da República no longo caminho feito pelo Brasil até 15 de novembro de 1889. Ao fim do livro, a autora nos incentiva a refazer os passos dos conjurados. “É um bom momento para contar e recontar a estranha história do espólio republicano que nos pertence por direito, reacendendo algo da antiga chama de uma tradição esquecida”.

 

FONTE:  O Globo – 1º.09.2018 – Segundo Caderno – Pag. 6

Jornalista: Miriam Leitão

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