Imagens dos anos 1940 a 1960 mostram o Mali às vésperas da independência

 

Olhares altivos e expressões quase sempre sérias aguardam o espectador da mostra “Seydou Keïta”, inaugurada final de agosto, em quatro salas do Instituto Moreira Salles, na Gávea. Produzidas no estúdio do fotógrafo em Bamako, a capital de Mali, entre 1948 e 1962, as 130 imagens da exposição registram, mesmo que de forma indireta, as transformações vividas no país no período, que culminaram com sua independência da França em 1960.

Exibido no IMS paulistano até julho, o conjunto da obra mostra por que Keïta se tornou uma das referências centrais da fotografia africana. Ele aliou em suas imagens elementos tradicionais da cultura local, com os tecidos usados como fundo dos registros, e símbolos da cultura ocidental, desde a moda até outros itens de consumo.

— Keïta sabia jogar muito bem com os tons, as formas e símbolos, sobretudo com os tecidos, que reforçavam a cultura e a ancestralidade. Nas suas composições havia uma tensão entre o passado colonial e uma perspectiva de independência, nos anos 1940 e 1950 — observa Jacques Leenhardt, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, que divide a curadoria da mostra com o curador cultural do IMS, Samuel Titan Jr. — Há fotos como a de um pai com sua filha, na qual ele está vestido à europeia e ela com uma roupa tradicional malinesa, que apontam para esta transição.

Autodidata, Keïta (1921-2001) abandonou a carpintaria, ofício da família, após ganhar do tio uma Kodak Brownie, com a qual passou a fazer retratos de um variado conjunto da sociedade malinesa: seus clientes iam de representantes da elite local e da burguesia em ascensão a trabalhadores em busca de um registro individual ou de suas famílias.

Após abandonar seu estúdio, em 1962, Keïta trabalhou como fotógrafo do governo até a década de 1990, quando suas fotos foram redescobertas e passaram a integrar exposições em países como França, Estados Unidos, Inglaterra, Itália e Japão. Proveniente da coleção suíça Pigozzi, o conjunto inclui 44 tiragens vintage, comercializadas pelo próprio Keïta em Bamako, e ampliações assinadas pelo fotógrafo a partir da década de 1990.

— A sua redescoberta se deu porque ele manteve um arquivo de negativos bastante completo. É a partir da ampliação deles, com tamanhos voltados a galerias, que o fotógrafo passa a integrar mostras de arte africana — pontua Titan. — Por serem de estúdio, seria difícil imaginar que tivessem tamanho poder de representação histórica. Mas a força dos registros vem justamente da altivez com que as pessoas são retratadas, e as formas com que apontam seus diálogos com o mundo externo.

Mesmo com o reconhecimento tardio, Keïta foi considerado o “pai” da fotografia africana, e sua referência se mantém presente entre a nova geração de artistas, dentro e fora do continente.

— O trabalho de Keïta foi importante para construir uma tradição, dentro de um diálogo com fotógrafos africanos da mesma época, que faziam experiências semelhantes em estúdio — diz Leenhardt. — Muitos dos fotógrafos que o têm como referência buscam essa genealogia, que mescla as relações entre passado e presente.

Para Titan, a influência nas gerações posteriores se dá em múltiplos sentidos:

— Há exemplos de homenagens diretas e abordagens em que elementos destacados por Keïta ganham um caráter de crítica social. A forma como ele absorveu os fundamentos da fotografia europeia e, sutilmente, mudou as regras do jogo ainda norteia muitas produções.

 

“Seydou Keïta”

Onde: IMS — Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea (3284-7400).

Quando: Ter. a dom., das 11h às 20h. Até 27/1/19

Classificação: Livre.

FONTE: O Globo