O point é um lugar-comum necessário. Mesmo que frequentado sempre pelas mesmas pessoas e as mesmas previsibilidades, precisamos do point. Ele nos torna familiares uns com os outros, pois quem frequenta point tem interesses iguais aos de todo mundo que está lá.

Entretanto, os points são mutáveis, uma vez que nossos interesses também mudam com o tempo. E aí, a gente deixa de frequentar um point e passa a frequentar outro.

Quando crianças, a escola é o nosso point de obrigação. Impossível deixar de frequentá-lo. Todos os dias as mesmas pessoas, as mesmas conversas e o mesmo tipo de roupa. Há outros points na infância também: a rua, o campinho, o clube, a casa de um colega… Como todo point, existe a hora de chegar, o tempo de ficar e o momento de ir embora.

Assim que os primeiros rascunhos de homem e de mulher já começam a se esboçar em nós, abandonamos esses points e partimos para outros.

E já somos adolescentes. Os locais de encontro agora são as festinhas, as baladas, os shows, o shopping… Mesmo que os interesses sejam confusos e atropelados, estamos sempre lá… com as mesmas pessoas, as mesmas conversas e o mesmo tipo de roupa. Barulho, som alto, conversa gritada, agitação… ainda assim, sentimo-nos confortáveis ali.

Porém, muvuca também cansa. Chega uma hora em que a adolescência dá um basta nela mesma. Mais um point se despede. Mais um point aparece: o barzinho. Violão, banquinho, um cara cantando pra ninguém prestar atenção, mesinhas lotadas, cerveja e todo mundo falando ao mesmo tempo. Quem? As mesmas pessoas. O quê? As mesmas conversas. Como? Com o mesmo tipo de roupa.

Hora de chegar… tempo de ficar… momento de partir… Point novo! Somos adultos.

Agora é o restaurante, onde jantamos com um casal amigo. Ou a casa do casal amigo, onde as famílias se reúnem. Points mais tranquilos e refinados. Mas são points. São lugares de aglutinação dos mesmos interesses e das mesmas previsibilidades. Points.

E vamos ficando mais velhos. A idade chega apenas pra dizer que não fica. E lá vem mais point, este também reunindo interesses, necessidades e conversas semelhantes: o laboratório de exames… ou a farmácia. É onde a sanha do sonho dá lugar à senha. Sempre há os que estão assiduamente ali, com as mesmas previsibilidades e as mesmas angústias, as mesmas brincadeiras e os mesmos veredictos.

Até que chega a derradeira fase do último point. Ali reúnem-se, numa notável fidelidade ao lugar, aqueles que já não têm mais interesses nem necessidades. Talvez, quem sabe, alguma curiosidade silenciosa, perdida nas esquinas dos túmulos, de saber se a vida valeu a pena nos points anteriores.

Último point! É osso duro de roer, mas tem que ser roído. Viver é um ofício e não tem como fugir dos ossos do ofício.

A vida, pode até oferecer vírgulas, porém ela jamais termina em reticências…

E point final.

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José Antônio Oliveira de Resende

José Antônio Oliveira de Resende é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei. Escritor, cronista, poeta, compositor, ator e autor de várias peças de teatro. É autor de livros tanto na área acadêmica quanto na literatura. Suas crônicas podem ser lidas nos jornais Tribuna Sanjoanense e Folha das Vertentes, ambos de São João del-Rei, e Jornal das Lajes, da cidade de Resende Costa.

e-mail: jresende@mgconecta.com.br

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