O APOIO

O assunto toma uma noite inteira de conversas, e o nome do poeta Augusto Frederico Schmidt é sempre carinhosamente relembrado por ter sido o anfitrião daquele encontro histórico entre mim e Juscelino. Ah… o Schmidt! Inesquecível personagem! Acabo de ler, com renovado entusiasmo, alguns belos poemas da coleção de suas obras completas. Embora o visse com pouca frequência e, por razões do destino, estivéssemos, quase sempre, apoiando amigos em campos políticos opostos, o fato é que mantivemos um pelo outro grande estima. Depois da Convenção da UDN, onde Jânio, ajudado por Lacerda e toda a sua banda de música, conseguira tirar o tapete de baixo de mim, o poeta comentou comigo:

– Foi o maior roubo político que já vi. Bateram sua candidatura!

Schmidt, o inesquecível autor de Canto da noite e Galo branco, foi um mágico personagem político-literário das décadas de 40 e 50.

Na sua dramática varanda, na Rua Paula Freitas, 20, em Copacabana, onde reinavam, além de sua bonita mulher, Yedda Ovalle, a sedutora afilhada francesa, Eliane Peyrot, os amigos encantavam-se também por uma espécie de ave-do-paraíso que lá estava sempre pousada. Era um galo-branco, asiático, deus olímpico de plumagem onírica, com uma inacreditável cauda de três metros. O ícone vivo da poesia de Augusto Frederico Schmidt era reverenciado por todos com algum espanto, para deleite do poeta, que nessas excentricidades aproxima-se das loucuras de d’Annunzio, com quem, de certo modo, se parecia.

Na casa de Schmidt, nos anos 50 e 60, podiam-se encontrar, num desfile incessante, estrelas como Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Roberto Marinho, Álvaro Americano, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Jorge Serpa – filho do governador que me libertara no Ceará em 1922 – Júlio Barbero, Kurt Veil, Lulu Aranha, Maria Fernanda, Isolda, Tônia Carrero, todos os Klabins, todos os Laffer, João Condé, Elba e José Sette Câmara, Maria Aparecida e Fernando Delamare, Aristóteles Drummond (ainda rapazola), José Paulo Moreira da Fonseca, Franzio Salles, Vicente Galliez, Mauro Salles, Nehemias Gueiros e José Alberto Gueiros (que moravam no sexto andar do mesmo prédio), e até, com toda a simplicidade, o presidente Juscelino Kubitschek. JK ia visitar seu amigo Schmidt sem jamais ostentar a pose de um chefe de Estado. Também frequentavam o poeta todas as divas do momento, artistas e mulheres de sociedade. O Rio nunca mais teve um salon daquela magnitude. Vez por outra, quando havia uma boa roda de amigos íntimos, Schmidt erguia-se de sua poltrona na biblioteca, andada até o meio do living room, abria os braços dramaticamente e dizia, como se fosse pela primeira vez, alguns dos seus poemas mais intensos. Muitos de nos os sabíamos de cor:

“Quando repousarás em mim
Como a poesia nos grandes poetas
Como a pureza na alma dos santos
Como os pássaros nas torres das igrejas?
Quando repousará o teu amor no meu amor?”

Os adversários diriam mais tarde que a ideia concebida por Juscelino de fazer-me candidato à presidência da República na sua sucessão só poderia ter nascido de uma poesia de Schmidt. Até esta ironia me confortou. Porque eu não merecera sequer um soneto da UDN.

Texto do livro “O Último Tenente” , páginas. 298 até 300.