Homenageado da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty, Lima Barreto é tema de um estudo historiográfico de Pedro Belchior, publicado pela Eduff, no livro “Tristes subúrbios: literatura, cidade e memória em Lima Barreto (1881-1922)”. Na obra, o autor analisa a relação do escritor com a cidade do Rio de Janeiro, a tensões culturais, de classe e de raça existentes no início do século XX e como Lima se posicionou em relação às transformações da cidade.

Para Pedro Belchior, Lima Barreto foi um encontro entre sua vivência e um desejo historiográfico. Mineiro, mudou-se para o Rio em 2006, e começou a trabalhar em Botafogo. Morando em Madureira com a família, viveu a experiência diária de deslocamento entre as Zona Sul e Norte do Rio, e pode testemunhar os preconceitos e interditos que existe entre o ser suburbano e o ser carioca.

Pouco tempo depois, ao ingressar no mestrado em História da UFF, Belchior se deparou com o romance “Clara dos Anjos” que o impressionou pela forma como Lima ambientou e retratou o subúrbio e pela posição de distanciamento do autor em relação ao local em que morava. “Tem uma frase que me chama muito atenção que é ‘O subúrbio é o refúgio dos infelizes’, e enormes passagens nesse livro em que Lima se coloca como uma espécie de etnógrafo do subúrbio carioca, um observador privilegiado que, ao mesmo tempo em que vive no subúrbio, não se sente parte do subúrbio. Eu me identifiquei um pouco com a figura do Lima, que é como se ele fosse um suburbano por acidente”, diz o autor.

 

Essa relação ambígua de observador e ao mesmo tempo morador suburbano é explorada a fundo no livro de Pedro Belchior. Embora já existisse na bibliografia sobre o escritor críticas a essa postura ambivalente, o autor afirma que também notou a existência de um certo senso comum que vê Lima como um escritor suburbano por excelência, na melhor acepção da palavra, um escritor do povo e para o povo. “O que talvez diferencie o meu trabalho é o foco nessa ambiguidade da obra dele, nas tensões. É a ideia de não construir uma relação unívoca do Lima Barreto com a cidade. É uma relação de pertencimento com a cidade e de olhar sobre o subúrbio que vai se construindo. Eu acho o que eu aponto no livro é que muitas das visões anteriores dão como dada essa relação, e eu procuro mapear o processo de construção”, explica.

Lima Barreto foi o primeiro escritor a se voltar para o subúrbio e a elegê-lo como fonte de inspiração. Matéria-prima do escritor, o subúrbio muitas vezes deixa de ser pano de fundo e aparece como um verdadeiro personagem de Lima. “Ele fala das casas, das mansões, dos casebres, das favelas do subúrbio e em algumas passagens é como se os personagens de carne e osso ficassem em segundo plano e em primeiro plano o subúrbio em si e sua configuração geográfica, espacial”, explica.

No livro, não há uma oposição entre obra e vida do escritor. A ideia principal é analisar de que forma Lima Barreto produziu uma memória sobre o subúrbio carioca e de que forma essa memória alterou a visão sobre o subúrbio naquela época e ainda hoje. “O Lima é muito autobiográfico, muito autoliterário. Ele se elegeu, talvez, como o principal personagem da sua obra. É óbvio que com várias transfigurações, mas o Lima é muito autor referenciado, os dramas dele, as tragédias pessoais foram tematizados de forma muito massiva ao longo de sua obra”, conta o autor que usa como exemplo “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, primeiro romance publicado por Lima Barreto, em 1909, e considerado por muitos quase como um relato do real ao tratar da inserção de um escritor mulato no mundo jornalístico e as dificuldades que teve para vencer preconceitos de origem racial e social.

Em “Tristes subúrbios”, Belchior pretende, ainda, desconstruir a ideia de um escritor maldito e isolado, pouco reconhecido pelos seus pares e alheio ao mundo literário. De acordo com o autor, essa era uma imagem muito comum sobre o escritor, principalmente nas décadas de 1970 e 1980. “Quando você lê a bibliografia do Lima, você descobre várias cartas e vários textos em que ele atua praticamente como crítico literário. E ele era muito elogiado no Brasil todo”, explica Belchior.

Sobre o autor

Doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense, Pedro Belchior é mestre em História pela Universidade Federal Fluminense e bacharel em História pela Universidade Federal de São João del-Rei. Pesquisador do Instituto Brasileiro de Museus, Belchior trabalha no Museu Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Participa do grupo Perspectivas Analíticas para a Obra de Heitor Villa-Lobos (PAMVilla/USP) e é coautor do livro “Nova Fase da Lua – Escultores Populares de Pernambuco” (Recife: Caleidoscópio, 2012), com Flávia Martins e Rogerio Luz.

Lançamento: 14 de Setembro, quinta-feira, às 19h.

Local: Centro Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ – Praça Dr. Augusto das Chagas Viegas, 17 – São João del Rei – MG.