Yedda Schmidt

Religiosidade, música, poesia, esportes, literatura, viagens, sol, festas… mas acima de tudo uma forte sintonia consigo mesma. Eis a receita de vida da carioca Yedda Schmidt, mulher do poeta Augusto Frederico Schmidt e amiga do presidente Juscelino Kubitschek.

A sua história: meados dos anos 30, Yedda tem 22 anos. O General do Exército Caio Lemos, implacável quanto às regras de bons costumes, tranca a filha no quarto. Daí a pouco, chega o noivo. “Por que Yedda está de castigo, general?”, pergunta, ansioso. “Ela foi ao baile de carnaval, sem a minha autorização! Uma moça de família e ainda por cima comprometida não pode ir a um baile sem seu noivo.” Yedda, uma morena linda, de olhos verdes, ouve tudo escondida no alto da escada. A reação de Schmidt seria decisiva para o futuro dos dois: “Coitadinha, general! Ela é jovem, precisa se divertir.” Aquela não era a primeira vez que Yedda desobedecia ao pai. Acreditava ter os mesmos direitos que seus dois irmãos homens e cobrava isso da família. Quando o pai não concordava, não era um grande empecilho: ela dava seu jeito, com a ajuda da mãe, Praxedes, uma paranaense descendente de chilenos. Afinal, ir ao baile com os irmãos não parecia uma falta tão grave assim… pelo menos na visão de quem, desde os 14 anos, já fumava – um escândalo para a sociedade!

Criada na calma Ilha de Paquetá, tinha uma energia inesgotável. Na adolescência, ao ver os dois irmãos indo à escola no Rio de Janeiro, decidiu que também estudaria. Yedda insistiu tanto que acabou matriculada no colégio interno Sacre Coeur. Lá, pediu a uma freira para ser batizada – o general era positivista e não batizara os filhos. A freira quis saber quem ela gostaria que fosse a madrinha: “A Virgem Maria”, informou. A devoção, levaria por toda a vida. Para padrinho, escolheu o tio, o músico Jayme Ovalle, autor de ‘Azulão’. Yedda herdou a musicalidade. Tocava piano e violão e cantava bem, com voz rouca, que podia lembrar a de Marlene Dietrich.

Amor à primeira vista

No internato, viu o homem que seria seu marido. Acompanhando o amigo Ovalle, o poeta Augusto Frederico Schmidt (que na minissérie JK foi interpretado por Antonio Calloni), ficou encantado com a beleza tipo mignon, que mais tarde seria retratada por Portinari.
Anos depois Schmidt visitou os Lemos, e apaixonou-se. Já era um poeta publicado, com algum reconhecimento. Os dois descobriram coisas em comum: a inteligência aguçada, o amor à poesia e aos animais. Trocaram cartas, livros e poemas. Ela pedia ao intelectual que retocasse seus textos. Na rotina da moça cabiam, além da escrita, banhos de sol na praia, vôlei e o hipismo – ganhou diversos campeonatos. Por tudo isso, o namoro foi tumultuado. Não pensava em casar, queria correr o mundo e conhecer outras culturas. Para completar, as amigas a aconselhavam a não namorar um poeta. Mas, no íntimo, Yedda tinha a certeza de que ele venceria na vida. Schmidt perdeu cedo o pai, a mãe, a fortuna. Já tinha sido caixeiro-viajante e gerente de serraria. Mesmo depois de aceitar o noivado, a musa prestava contas ao par. Trocava fácil o cinema com ele por uma viagem a Cabo Frio com amigas. Schmidt, magoadíssimo, escrevia cartas de recriminação. A tristeza durava três dias. Um simples telefonema da amada para mudava seu estado de espírito. Tornou-se empresário sem jamais abandonar a veia poética.
Dedicou várias obras à inspiradora: “Para Yedda, para que a poesia torne à sua origem”, diz em Canto da Noite, lançado em 1934. Com o incentivo dela, criou a Schmidt Editora, que publicaria autores então desconhecidos, como Graciliano Ramos, Vinícius de Moraes, Jorge Amado e Gilberto Freire, entre outros. Schmidt tinha faro literário. Quanto à noiva, bem, ela resolveu a dúvida sobre o casar ou não no episódio do baile de Carnaval. Convenceu-se de que o poeta seria o marido ideal. Intuiu que só a liberdade faria do casamento uma parceria espiritual, em que am-bos tivessem o mesmo valor. Sempre dizia: “A mulher não deveria ser submissa, e sim sua companheira do marido em uma jornada onde os dois se protegem e se respeitam.”
Casaram-se em 1936 (ela com 24 anos e ele com 30) e foram morar em Copacabana. O marido presenteou Yedda com um apartamento em Paris, onde sozinha, passava longas temporadas, porque, segundo ela, “Cada um precisa de um pouco de solidão”. O poeta lhe deu ainda um automóvel conversível. Yedda corria pelas ruas – então desertas da Zona Sul – velocidade era uma de suas paixões.
A Sra. Schmidt também marcou a sociedade carioca como esplêndida anfitriã. Promovia festas movimentadas, nas quais ouvia-se Vinícius de Moraes improvisando ao piano, Villa Lobos falando de Maria Callas, Portinari e Di Cavalcanti trocando idéias sobre artes plásticas, José Olympio comentando os últimos lançamentos literários… Tudo que ocorria no grande salão dos Schmidt virava notícia nas colunas sociais, inclusive encontros de políticos e empresários.

O presidente íntimo

Juscelino Kubitschek era vizinho de prédio. Dividia o mesmo barbeiro que atendia o poeta em casa e, certa vez, ao chegar para escanhoar a costeleta, encontrou Yedda tomando o café da manhã. Querendo ser gentil, Schmidt sugeriu à mulher: “Dá uma jabuticaba para o Juscelino, Yedda, que ele é louco por jabuticaba”. Yedda respondeu: “Não dou não, Schmidt. Eu também adoro jabuticaba e estas são minhas”. O marido replicou: “Mas é o Presidente, minha filhinha!” Ela não se intimidou: “E daí? São minhas. Não dou.” JK ficou sem a fruta.
Grande parceira, Yedda ajudava nos desafios ouvindo e inspirando o marido, que ascendeu na diplomacia – foi embaixador nos anos 50 – e no mundo dos negócios. Em 1952, numa época em que comida era comprada em armazéns, ele inaugurou o Supermercado Disco, em Copacabana, o primeiro do gênero no País. O casal trouxe a novidade da temporada que viveu em Nova York. Schmidt também foi sócio da primeira indústria de materiais nucleares do Brasil, a Orquima, nos anos 40. Durante o mandato de JK, (de 1956 a 1961), atingiu o auge da influência política. Agia nos bastidores, escrevia os discursos de JK. Foi o criador do famoso slogan “Cinquenta anos em cinco”. Outra pérola que Juscelino repetia, o poeta criou ainda na campanha, duramente ameaçada pelos opositores: “Deus me poupou o sentimento do medo”. A maior contribuição foi a Operação Pan Americana (OPA), um plano para tirar a América do Sul do subdesenvolvimento com a ajuda dos países ricos. Yedda viajava com ele para as conferências. E, no Rio, organizava recepções aos embaixadores estrangeiros.Os eventos funcionavam como peça de convencimento político.

Sexto sentido

Nem tudo foi um mar de rosas. Yedda perdeu duas gestações e descobriu que o filho tão cobrado pelo marido nunca nasceria. Mais tarde, considerou como filha, Eliane Peyrot, jornalista da Rede Globo que trabalhava em Paris. Ela protagonizou uma das premonições de Yedda, que antevia o perigo – teimou em sair do carro para tomar água de coco na praia. Yedda avisou: “Não salte do carro, pois você vai ser atropelada”. Sem dar crédito, Eliane desceu e o fato se consumou. “Fiquei três meses hospitalizada”, lembra. “Ela nunca errava”.
A mulher de Schmidt intuía, de imediato, o caráter das pessoas. Muitas vezes, o avisava de que um amigo o trairia, o que mais tarde se comprovava. Quando desconfiava de alguém, dizia: “Não gosto de você, saia da minha casa”.
A sintonia com o sobrenatural instigou-a a buscar a espiritualidade na Índia, onde praticou yoga e estudou o budismo e abandonou o hábito de comer carne. Assim como cultivava o espírito, alimentava a vaidade. Foi categórica quando lhe perguntaram para quem as mulheres se arrumam: “Para o espelho. Elas se arrumam, em primeiro lugar, para si mesmas.” Vestia-se nos melhores costureiros europeus, mas não seguia a moda, usava só o que lhe caía bem e ressaltava o bronzeado.

Galo Branco

De uma viagem à China, o casal trouxe um galo, imponente e branco, que o marido, supersticioso, decidiu criar na varanda. A ave atuava como sentinela, avisando dos problemas que viriam. Yedda compreendia a extravagância que Schmidt trazia do passado: ele ouvira o canto de um galo e pressentira a morte da mãe. A ave chinesa deu seu último aviso no dia em que Juscelino sofreu o pior revés. Em 1964, por sugestão de Schmidt, Juscelino, então senador, votou no general Castelo Branco, em pleito indireto, no Congresso Nacional. O poeta havia garantido que, se desse seu voto, Castello não o cassaria. Mas Castelo o traiu. Horas depois da cassação, amigos se juntaram a Juscelino na casa dos Schmidts. O poeta redigiu o último discurso que JK faria antes de partir para o exílio. Em meio à comoção do grupo, o galo se atirou pela janela e se espatifou na calçada.
Schmidt morreu do coração em 1965, pouco depois do exílio do companheiro. Yedda se refugiou em Paris. De vez em quanto, visitava o Brasil. Juscelino estava de volta ao país e sempre conversava com Yedda pela janela. Foram amigos até o acidente que tirou a vida dele, em 1976. Em 1996, no Rio, morria Yedda. Tinha mais de oitenta anos e não havia desistido de ser uma mulher comprometida com a sua verdade interior.

“Escrito por Letícia Mey, autora de “Quem contará as pequenas histórias”, e gentilmente cedido pela REVISTA CLÁUDIA.